Álbuns da minha vida #2: Radiohead — The Bends

Radiohead — The Bends (1995)

Não lembro direito da ocasião, só sei que um dia ganhei esse CD do meu tio — ele me passou adiante porque, sei lá, acho que ele captou que eu gostava de música. Hoje em dia, eu tenho uma interpretação bem interessante desse gesto bacana de apresentar coisas para as pessoas, especialmente para crianças e jovens. O impacto que um disco, um livro, um texto, um videoclipe, uma revista, um filme ou até uma simples conversa pode ter na vida de um indivíduo em formação. Claro que, independentemente da idade, vivemos em constante formação; mas, no caso de crianças e adolescentes, o ato de compartilhar coisas tem um potencial formativo ainda mais forte.

Olho para esse álbum e sinto como se o meu tio, ao ter a iniciativa de me apresentar a ele, tivesse me enxergado enquanto pessoa. Ele me apresentou a algo e, mesmo que nem soubesse da potência daquele gesto, foi um ato de não-subestimação de uma criança. Ofertar sempre mais — mais conteúdo, mais informação, mais curiosidade — é fazer crescer de verdade. É estimular, instigar, provocar. Meu tio me apresentou algo porque, por um instante, me enxergou como uma pessoa: com gostos, com capacidade interpretativa, com sensibilidade, com interesse, com um mundo para ser desvendado. E aquele The Bends, de fato, mudou minha vida, pois me encaminhou à música.

Em meados de 2004 e 2005, entre Avril Lavigne e Pitty, as coisas que chegavam a mim através da produção em massa de cultura pop para adolescentes “rebeldes”, o Radiohead que chegou foi um choque. Um choque gostoso: colocava o CD pra tocar no meu rádio e ficava deitada no chão do meu quartinho compartilhado, em transe com Black Star. The Bends me introduziu, também, ao restante da obra do Radiohead e me conectou de uma vez por todas ao hábito de consumir & sentir música para além do conteúdo adolescente que me chegava pela rádio, pela MTV e pelas revisitinhas teen (sem menosprezar o papel de cada um desses meios de comunicação na minha formação, claro).

Para mim, The Bends também é um dos álbuns mais importantes da minha vida, também pelo simbolismo que atribuo à chegada dele até mim. Me emociona muito pensar que, aos dez ou onze anos, uma pessoa adulta olhou para mim, mexeu na estante e, por conta própria, me ofertou algo para além do conteúdo que costumam ofertar à crianças e adolescentes. Hoje em dia, guardo comigo a importância de atos como este e tento me condicionar, diariamente, a não subestimar os jovenzinhos ao meu redor. E, com isso, não quero insinuar que Radiohead esteja um nível acima da música adolescente daquela época — quero apenas dizer que, normalmente, ninguém me ofertaria nada além do que chegava a mim naturalmente. Nós, adultos, não costumamos apresentar muitas coisas às crianças e aos adolescentes, sem pressão, sem obrigação nenhuma, sem nenhuma intenção. Não ofertamos nada em gratuidade. Meu tio não me obrigou a ouvir nada, não questionou os meus gostos, não criticou quem eu era, não se importou em me educar musicalmente, não teve um pingo de prepotência adulta e educadora para cima de mim — ele só puxou algo da estante dele e disse “fica com esse aqui pra ti” para uma menina de dez anos e, sem saber, mudou uma história.

É bonito isso, né? Achei que valia a pena compartilhar. Resgatar essa lembrança e fazer essa interpretação sobre a potência desse presente na minha vida gera impacto na minha vida até hoje: enquanto pessoa, educadora & familiar, espero ter a sensibilidade de, gratuitamente, sem intenções pedagógicas ou didáticas, compartilhar de tudo com aqueles a quem ninguém nunca pergunta as opiniões, os gostos, as visões de mundo, os sentimentos, as interpretações, etc. Os que não são adultos ainda, mas que são pessoas.