Escute o Seu João.
Voltando do estágio, no ônibus, começo a conversar com um usuário (nós do Serviço Social chamamos de usuário todo aquele que utiliza de uma política social, que nesse caso, é a de saúde mental).
É o João. Ele tem 50 anos, é calado, muito simpático e é depressivo.
Ele me contou como desenvolveu esse quadro, como os relacionamentos amorosos (curtos) ajudaram e pioraram e me contou como ele anda hoje.
Disse que a última vez que pensou em suicídio foi há alguns meses, quatro ou cinco meses. Uma vitória imensurável.
Relatou sobre o preconceito que vive em ter um transtorno mental que põe em risco a sua condição de existência.
E, ouvindo tudo que o Seu João me contava, eu me dei conta de uma coisa óbvia, mas fundamental: a gente nunca conhece ninguém. Nem quem a gente convive. Nem quem a gente mora junto.
É impossível você penetrar nos pensamentos de alguém, sentir o que a outra pessoa sente.
E eu percebi que, mesmo involuntariamente, eu julgava o Seu João. “Aquele usuário é sério demais, fechado demais, parece estar sempre com raiva”.
O Seu João é uma pessoa amável, respeitadora, engraçada e carinhosa. Ele é inteligente, entende de tudo, mesmo não tendo nível superior. Ele me deu ensinamentos que nunca aprendi em 3 anos de faculdade numa conversa de 35min.
Ele me ensinou — mesmo que sem perceber — que uma conversa num 711 UFAL Ponta Verde pode mudar concepções e (pré)conceitos e derrubar todos as construções sociais e ideias preconcebidas da vida de uma humana miserável que acha que sabe tudo aos 20.
