SEMPRE AO SEU LADO

Ela esfregou as mãos úmidas na calça jeans e respirou fundo, fracassando na tentativa de se acalmar. Por que ele está demorando tanto? Não deve ser difícil achar uma vaga naquele estacionamento enorme, pensou. Estava começando a achar que ele a havia abandonado, talvez ele não pudesse suportar tudo aquilo. Ela não podia culpá-lo, ela mesma sentia que não poderia suportar.

A porta de vidro do consultório médico se abriu e os familiares all stars, pretos, sujos e velhos começaram a andar em sua direção. Ela suspirou aliviada e se sentindo um pouco idiota por pensar que ele poderia abandoná-la. Porém, ela não conseguiu olhar em seus olhos.

- Caramba, você está tremendo! — Ele exclamou ao envolver sua mão na dela enquanto se sentava ao seu lado. Ela tentou sorrir, mas tinha a certeza que mais parecia uma careta. — Vai fica tudo bem, anjo.

Desde o dia em que se conheceram ele a chamava de anjo, a chamou assim antes mesmo de saber se quer seu nome de verdade. Talvez o apelido fosse por causa de seus cabelos loiros e ondulados, pelos olhos azuis talvez, ou talvez por ambos. Ela não sabia dizer, nunca o perguntou o porquê daquele apelido e agora, que podia não ter mais tempo para isso, lamentava. Mesmo se for positivo, ainda haverá algum tempo. Assim que sairmos daqui vou perguntá-lo, ela prometeu a si mesma.

- Desde que você esteja ao meu lado — ela implorou aos sussurros. Ele beijou o topo de sua cabeça, e colocou uma mão em seu queixo, fazendo com que ela se virasse para encará-lo.

- Nunca te abandonarei — ele disse baixinho, a voz suave e os olhos castanhos sinceros — Não posso e não quero abandonar a minha vida, porque, não sei o que tenho que fazer pra que você entenda que, querendo ou não, você é a minha vida. Você é tudo o que eu tenho,você é tudo o que eu quero. — Ele respirou fundo e continuou — Escute-me bem, independente do resultado eu vou estar sempre ao teu lado, vou lutar contigo se preciso for. Sua alegria sempre foi a minha alegria, e independente do tamanho da tua dor, ela vai continuar sendo sempre a minha dor também, anjo.

Ela pode sentir seus olhos ficarem úmido. Com o polegar ele limpou uma lagrima que havia fugido dos olhos dela, e pousou delicadamente seus lábios vermelhos nos finos lábios rosa dela.

- Te amo — foi tudo o que ela conseguiu dizer antes que uma mulher de meia idade chamar seu nome. O corpo dela ficou tenso quando ele se levantou, mas após longos segundos de hesitação ela também o fez. Percorreram, a passos vagarosos, a pequena distancia entre o sofá e a sala da médica.

- Boa Tarde — disse a Doutora de cabelos pretos longos e lisos. Sem desviar os olhos dos papeis que estavam em cima de sua mesa, apontou duas cadeiras — Sentem-se — ela sorriu e finalmente os olhou. Ele apertou a tremula mão da garota, que relutante o seguiu,sentando-se na cadeira indicada pela médica.

- E então, fez os exames?- a medica perguntou, sem que o sorriso em seu rosto diminuísse. A garota sentiu raiva. Como ela pode sorrir diante de uma situação como essa? Ela se perguntou, enquanto fuzilava com o olhar a pobre medica que ao ver a tensão do casal, sorriu em uma tentativa falha de tranquilizá-los.

- Ela fez sim — ao ouvir a voz firme, porem ainda doce de seu amado ela voltou a si esquecendo-se da raiva. Parecia que ele tinha um dom, ele sempre fora capaz de fazê-la se acalmar rapidamente, seja com um olhar, um toque ou ate mesmo com um tom de voz.

Quando se conheceram, ela andava apressadamente em direção a sala da diretoria, estava furiosa, pois haviam lhe roubado o celular, foi quando esbarrou nele. Ambos caíram no meio do corredor e ela ficou ainda mais irritada, ele lhe estendeu a mão e ela estava prestes a lhe dizer onde enfia-la quando os seus olhos se encontraram e toda a fúria dela se dissipou, assim de uma hora pra outra, como magia. Ela aceitou a mão dele, e ele disse “Me desculpe, anjo, estava distraído. Se machucou?”, ela aceitou seu pedido de desculpas e lhe disse que não havia se machucado, mas ele queria de qualquer forma lhe recompensar, não que a culpa do esbarrão tenha sido dele. Ele a acompanhou ate a diretoria e ficou ao seu lado enquanto ela se queixava. Começou a segui-la por todos os cantos do colégio, ela por sua vez não reclamou, não por que queria que ele pagasse seu lanche, carregasse sua mochila ou qualquer coisa do tipo, ela apenas o queria ali, do seu lado. De inicio ela não entendia bem o porquê, só sentia que dali pra frente o queria sempre ao seu lado, mal sabia ela que, naquele mesmo instante, ele desejava o mesmo.

Ela sentiu o envelope em sua mão direita ser puxado a tirando de suas lembranças e lamentou, as lembranças eram tão melhores que a realidade. Após alguns instantes ela por fim soltou o envelope e ele o entregou a média, que o abriu. O coração da garota começou a pulsar freneticamente, mas não era como quando ele a beijava no pescoço ou sussurrava algo em seu ouvido, era uma batida pesada, cheia de medo e angustia. O sorriso desapareceu do rosto da medica e ele envolveu os ombros dela com seu braço a puxando tão perto quanto possível, já prevendo o que a médica diria.

-Sinto muito — disse sem rodeios e cheia de pesar nos olhos escuros.

- Não — em meio à lagrimas era tudo o que ela conseguia sussurrar, um sussurro inaudível até para si mesma. Ele a apertou contra si. E entre soluços ela mal pode ouvir as perguntas que ele fazia a médica e muito menos as respostas que ela lhe dava. Ela estava com câncer, ela morreria, não teria tempo de se casar ao ar livre, ter dois filhos, uma casa com um enorme quintal, um cachorro. Ela não poderia mais sentir os braços dele envolta do seu corpo pequeno, nunca mais sentiria os doces lábios dele. Ela não poderia mais cumprir a promessa de ficar velhinha ao lado dele.

Ela o seguiu automaticamente todo o caminho ate o carro, ele dizia palavras que ela não ouvia, e ela continuava em silêncio. Quando ambos estávamos no carro eles se virou para ela e tomou o pequeno rosto dela em suas mãos e a beijou, por meio segundo ela encarou aquele beijo como uma despedida, mas havia paixão de mais ali pra isso. Aquilo não era um beijo de despedida, ele não estava desistindo, ele iria lutar, ela podia sentir isso. E se ele o faria por que haveria ela de desistir antes mesmo de tentar? Ela o teria ao seu lado, isso já era motivo o suficiente para ela ao menos tentar, ela não desistiria de sua casa com jardim grande, seus dois futuros filhos, de seu futuro cachorro, de seu casamento ao ar livre, de sua vida assim, fácil. Ela não desistiria de ter ele ao seu lado velhinho e ranzinza sem lutar, e se tinha algo que ela sabia fazer bem era lutar pelo que ela queria, e ela queria ele e ela estava decidida a não perde-lo, a não se perder. Ele se afastou e sorriu, ela retribui o sorriso sem nenhum esforço e viu os olhos dele brilharem. Ele a conhecia bem havia visto a determinação em seus olhos milhares de vezes e uma felicidade imensa o preencheu enquanto ele se lembrava de que ela sempre conseguia o que queria, quando estava determinada e desta vez não seria diferente,ele não deixaria que fosse diferente.

- Te amo, anjo.

-Eu também te amo — ela disse e subitamente se lembrou da promessa que havia feito lá encima, no consultório — Hey, por que me chama assim? — ele pareceu confuso, e ela explicou — De anjo, Por que me chama de anjo?

Ele sorriu e ela sabia que o que quer que ela fosse enfrentar ele estaria ali, com aquele mesmo sorriso segurando a sua mão.

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