de quando me afoguei pela primeira vez

ainda me lembro

da primeira vez que deixei com que as águas cobrissem todo meu corpo num súbito momento de coragem

e que não senti o chão abaixo dos meus pés…

me revirando e revirando

as ondas do mar de Santa Catarina

lembrei da minha casinha de pau a pique

e da corrida destemida seguida dum saltar imenso

dum corpo pequeno e magro que era o meu

colidindo com a cortante água fria que eram as águas do sul

e de longe eu ouvi as canções: eu acho que foi Deus

foi a primeira vez em que ouvi Deus assoprar o meu nome

no tocar da gaita do fim da tarde

o sol frio fazendo sombra no cais

o tripé de fotografia do meu tio

que registrava momentos quase inúteis e que nunca foi capaz de me fotografar no exato momento em que eu tocava as nuvens segundos antes do tibummmmmmmmmmmmmmmmmmm

a CAIXA ALTA

minha vontade de gritar palavras

e de ser POEMA

e de SER retrato

triplique triplique triplique

a vontade de ser VOZ

em caixa baixa

sufocar-ar-puro

a vontade de viver e nadar nadar nadar até o topo do mundo

ou das dunas

de longe a casinha de pau a pique

eu me lembrava…

me afogava

acho que nesse dia eu morri umas três vezes, triplique, des-desculpa

ouvi a voz de Deus umas sete

e nem assim me fiz ir embora

é tudo uma questão de como as coisas surgem e ressurgem e recomeçam

é perspectiva

chuá, as ondas frias do mar de Santa Catarina

eu já fui mais pequena, eu já fui mais imensa

já não sou poema

hoje procuro resquícios pra minha alma falar o que ela sempre desejou ser

e assoprar no telefone sem fio o que Deus falou pra menina naquele dia

desespero, pouco ar e muita vida

são os olhos de Oxalá cruzando as montanhas

e a minha casinha de pau a pique

eu-pequena, se enrolando nas toalhas

e indo embora

pulando as sombras na ponte de madeira

deixando que o sol enxugasse

o que se confundia com lágrima

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