fez-se amor

o que me acontece é que eu tenho vindo nestas palavras guardar alguns poemas para me deixar esquecer da minha própria concepção do que é amar. é que eu ainda acredito, amar é imenso. acho que quando Prometeu roubou o fogo dos deuses e o entregou aos humanos, ele também pensava muito sobre isso, quem sabe a rocha a qual foi amarrado não o guardou liberto. é que acreditar no amor é ultraje. eu venho aqui guardar palavras porque me é imenso o que acontece no peito quando me deparo com tia Maria. É que tia Maria sempre foi senhora de áurea boa e me abraçou por diversas vezes como se quisesse me proteger de todo o universo. eu nunca me sinto segura. é que eu tenho um amor que anseia, que não espera, que está sempre pronto, um amor que tem fome, eu tenho um amor que me faz dor e me vomita para que eu possa guardar as nossas palavras. eu sempre me perdia enquanto eu a observava. é que o peito de tia Maria explodia, e o seu olhar infinito anunciava uma chegada a galope da esperança. eu guardo palavras porque sei que alguém dia terei que me ler, eu guardo palavras porque algum dia sei que terei que me lembrar quem eu sou, ou quem eu achava que era. é que eu tenho um amor emaranhado, um amor desajeitado, que ama mas não sabe que ama, que ama e tem medo de machucar, e por muitas vezes acaba se machucando. meu amor é como as árvores retorcidas com o passar do tempo e que se esvai com a erosão da terra. meu amor é livre como a lua posicionada em aquário, mas também sensível e apegado com o sol posicionado em peixes. o planeta Vênus tenta ajeitar tudo se posicionando em touro. o sorriso do menino Gabriel enquanto brinca com a menina é o que estabiliza as voltas dos planetas. de manhã, me peguei pensando no que iremos fazer quando os planetas começarem a girar em sentido contrário. reparei que eu sempre gostei da segurança. Platão falava muito de Atlântida, e sobre como Atlântida foi devastada por águas e sobre como ainda restam resquícios do lendário continente de luz. à alma cercada de cicatriz, enterrastes ai uma parte de mim, logo vejo brotinhos nascendo através da pele dilacerada no exato momento em que escuto de longe a intensa cavalaria se aproximando. fecho meus olhos e sinto a revolução. se segure, curumim, se segure, curuminha, guardarei as próximas palavras como se pouso fosse. o reflexo da água doce se alojou no rosto enrugado de Dona Clementina, o amor fez reza até a capela de São João, e fez a gira no dia de Xangô, o amor fez nascer tempestade, que fez nascer pôr do sol, o reflexo d’água mergulhou nos olhos imensos de tia Maria e se fez a imensidão. o coração faz sempre dor. o amor fez nascer o brotinho de miosótis, que fez nascer a lembrança. na memória e no papel guardo minhas palavras, de todo meu coração. o amor fez-me viva.

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