tudo floresce

o que me importa é o que fica. sempre me foi assim. por muitas vezes desacreditei do amor e do perdão e me afundei em mágoa no peito. a saudade sempre me pegou desprevenida em umas esquinas. o amor sempre volta, fica, morre, vai embora, se lembra e renasce. pelos vagões a criança sorri encantada ao ver o moço tocar flauta. às sete da noite a moça se suspende em cordas no céu azul escurinho do verão exaustivo de São Paulo, enquanto eu rabisco alguns versos bobos na caderneta vermelha e lamento por nem sempre as coisas serem como a gente quer que elas sejam. reciprocidade é bom, mas não é tudo, algumas lágrimas borraram a tinta no papel. não vou deixar de me escrever, de te escrever e te desenhar. não dói mais. todo meu amor foi real. a ironia foi ter cantado aos sete pedindo à Deus um pouco de malandragem. besteira. ironia foi aos sete ter me escondido debaixo do sofá para que não me vissem chorar. hoje já faz meses da crise política, e alguns dias da aniversariante. soprei vinte e uma vezes, depois onze, depois meio sopro pra uma única passagem de tempo, algumas vezes também o dente de dragão. chorei pra lua, mas nunca lhe pedi coisa alguma. pus o ouvido no peito do anjo, li Drummond, sussurrei hai kai leminskiano, fui à festas, fechei meus olhos, ignorei o que me aflingia todo o estômago, esperei e confiei no tempo. ela nunca voltou, e nem eu nos apaguei da memória. desde pequena sempre foi assim. eu nunca me esqueço, as minhas águas só desaguam pruma cachoeira de profundidade desconhecida, e nada se esvai. é que pra mim o que importa mesmo é o que fica (guardado no tempo, na mais doce lembrança). a dor quando não cessa, eu faço em prosa e giro na cadência do samba, da gira.

é que depois que eu perdi a fé na vida

me desfiz inteira em arte, poesia

agora me passo rabiscando uns livros, escritos, fazendo da tripa-coração

a minha pele reluz em mim ao tempo em que escuto a canção

e no assoprar do dente de dragão, nada volta, mas tudo floresce.

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