Sobre os “mas” do mundo corporativo e ser você mesmo dentro dele

“Ah, mas ela tem cabelo colorido, não passa a ideia de um profissional nesse cargo"

“Ele é muito bom no que faz, mas é tão afeminado. Algumas pessoas não vão gostar” / “Com esse cabelo curto e roupa social, tá muito na cara que é sapatão. Sem credibilidade nenhuma”

“Ela é mãe, vai ficar arrumando desculpa pra faltar no trabalho”

“Parece que ele nem tomou banho antes de vir trabalhar. O que as pessoas vão pensar?”

“Homem de cabelo grande? Deve ser desleixado e desorganizado, não dá”

“Ela veio na entrevista e não se maquiou, aí não dá. Pelo menos um batonzinho pra passar a ideia de formalidade”

“Ele é muito jovem. Só tem vinte anos. Não tem como ter maturidade pra trabalhar numa empresa grande”

As frases que você leu acima fazem parte do mundo corporativista. Se elas não te chocaram ou incomodaram pelo menos um pouco, sinto dizer que você hoje é menos humano por conta dessas verdades absolutas construídas pra nos tornar iguais.

Menos humano, sim. Até que ponto essas “regras” no mercado de trabalho servem para nos dizer se alguém é bom ou não no que faz? Até que ponto a sexualidade, a cor de cabelo, a maquiagem (ou ausência dela) nos levam a crer que alguém é bom o suficiente para determinado trabalho?

Ser quem você é no mercado é muitas vezes visto como algo ruim. Ser quem é, sim. Usar ou deixar de usar algum acessório, ser de um jeito ou de outro, sua sexualidade, seus interesses são o que te torna único no meio dá multidão e, para muitos patrões, isso é algo péssimo porque “passa a impressão de (insira aqui algo genérico e depreciativo a respeito de sua aparência)”. Os “mas” do mundo corporativo apagam nossa identidade, buscam reprimir nossa criatividade e testar nossa capacidade de adequação. Num mercado tão diverso e carente de pessoas inovadoras, é impressionante como ainda há tentativa de ocultar qualquer coisa que emita nossos gostos e identificadores. E é tão radical a ponto de começar com roupas sobre nossos super heróis favoritos e terminar com nossas sexualidades.

As desculpas vão ficando diferentes (às vezes) mas os motivos continuam sendo os mesmos. A imagem. A imagem importa tanto que mesmo os patrões se apagam muitas vezes, deixam de extravasar o melhor de si para simplesmente cagar (sim, eu realmente usei essa palavra) regra nas cabeças de seus funcionários.

O mundo tá muito errado.

E tá tão errado que mesmo aqueles que fogem dessa bolha para se arriscar, na tentativa de mostrar que o diferentes pode ter lugar, acabam tropeçando, caindo, quebrando a cara dez vezes até começar a fazer exatamente o que os grandes fazem para ganhar dinheiro.

Já que deu tudo errado mesmo, é mais fácil começar a fazer do velho jeito para pelo menos poder lucrar em cima disso. Afinal, antes com dinheiro e frustrado do que pobre e frustrado. Realmente é bem pior.

A que ponto chegamos. Cada vez mais civilizados e conectados, mergulhados no progresso, MAS cada vez menos humanos.

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