Meu querido franqueado

Sou coordenadora pedagógica de uma empresa conceituada de ensino de inglês no Brasil. Esse post está em eterna construção, trazendo relatos do meu dia a dia com meu chefe e diretor da unidade.

Aceito sugestões de como lidar, porque não tô sabendo.

Meu querido franqueado já me pediu pra decorar a unidade e, ao chegar, me perguntou se eu ia deixar tudo daquele jeito mesmo. Uns minutos depois, me mandou trocar tudo o que eu tinha levado o dia inteiro pra fazer de lugar. Isso já aconteceu mais de uma vez, e perdi horas preciosas fazendo e refazendo a mesma coisa na unidade.

Meu querido franqueado já deu preferência a homens na hora da contratação porque, afinal, eles não engravidam, não arrumam desculpa pra faltar caso tenham filhos, fora que mulher tende a ser mais barraqueira. “Mas não você, né, querida?”, ele me disse após fazer esse relato.

Aliás, meu querido franqueado não aceita que mulheres apareçam sem pelo menos um batonzinho. Afinal, homem ninguém repara, mulher sim. Meu chefe nunca me perguntou o porquê de eu não querer usar maquiagem, e parece não se importar em saber.

Aliás (2), meu querido franqueado só dispensa mulheres. Homens, principalmente bonitos, não importando se são problemáticos, já receberam reclamação e não se comunicam (três características de uma mesma pessoa) podem ser mantidos dependendo da dor de cabeça. Certa ocasião, uma professora não mereceu nem uma demissão formal. Ela não era contratada, veio ajudar no final de dezembro e cuidou de tudo pra ele. Na hora de receber novas turmas, ele argumentou “por que ela achou que teria novas turmas? Ela só veio para quebrar o galho”. Mas o professor bonitinho que vive recebendo reclamações continua lá, firme e forte. Eu tive que ligar para a professora em questão pedindo mil desculpas pelo ocorrido.

Meu querido franqueado não quer que a gente perca tempo nem pra respirar. Inclusive, uma vez tomei esporro por falar com as recepcionistas, já que eu estaria “atrapalhando o trabalho delas e, consequentemente, as vendas”. Mesma coisa com a gerente. O chefe não quer nem que eu fique muito na recepção pra não ficar conversando. Mas, na entrevista, me falou que queria uma pessoa que sempre ficasse ali recebendo outras pessoas.

Numa outra ocasião, o namorado de uma das funcionários veio encontrar com a mesma, porém esta já havia saído da unidade. A recepcionista me procurou, pedindo que eu ligasse para ela pois seu celular estava guardado. O franqueado, ao ver a situação, prontamente já nos mandou voltar aos nossos trabalhos que ele mesmo resolveria a questão. A funcionária que havia ido embora não atendeu ao telefonema dele, já que estava fora do horário de trabalho. A falta de comunicação fez ela e o namorado brigarem.

Meu querido franqueado elogia a moça da limpeza (que acorda 3h30 dá manhã pra estar lá e vai todos os dias mesmo tendo machucado o pescoço num acidente) pela frente, mas reclama pro chefe dela nas costas. Meu querido franqueado também fica verificando as coisas depois que ela termina, só pra ver se está direitinho. Certa vez, num sábado, os chefes pediram para que ela esperasse todo mundo sair do curso pra não verem ninguém arrumando. Quando elas finalmente puderam limpar o curso, o mesmo as fez esfregar o mesmo chão diversas vezes, o mesmo vidro diversas vezes; sempre achando mais uma manchinha invisível aqui e ali.

Aliás, ele confere o trabalho de todo mundo. Meu querido franqueado escuta a conversa dos outros por trás da parede pra ver se estão fazendo certo. Ele também confere depois se você fala a verdade pra ele após ouvir o que você pensa por trás. Ele na entrevista por acaso me disse que não quer fofoca nem disse me disse na escola dele.

Meu querido franqueado diz que as coisas são suas e te diz pra ficar à vontade, mas no dia seguinte você vê que ele mexeu nas suas gavetas e armários, porque as coisas estão em lugares diferentes.

Meu querido franqueado fica checando se você fez o update do sistema e te manda consertar presenças e faltas de aluno que ele jura que viu, só pra depois dizer que se confundiu e te mandar colocar de volta como estava.

Meu querido franqueado está desesperado e fica mandando mensagens durante a noite, depois do trabalho, certa vez inclusive às 0h04. Também te pede tarde da noite pra chegar cedo no dia seguinte. Não estranhamente ele mora há 10 minutos da franquia e vai de carro; eu, de ônibus, demoro 2 horas todos os dias para ir e voltar.

Aliás, meu querido franqueado adora um whatsapp. Te manda mensagens o dia inteiro e não te deixa produzir. Mas se te ver usando na hora do trabalho, te dá esporro porque não é lugar.

Meu querido franqueado, inclusive, dita como você tem que fazer o seu trabalho, desenha seus passos e te diz até o que falar. Engraçado que eu que me formei em letras, por exemplo. Depois, quando as coisas não dão certo, ele diz que a culpa é sua e te pressiona por mais resultados. E pra ontem.

Aliás, meu querido franqueado não é formado em letras e não sabe nada de didática, mas é ele que decide contratar ou não as pessoas.

Meu querido franqueado não pede desculpas. Uma certa ocasião, ele me passou uma informação errada e depois disse que eu que entendi errado.

Meu querido franqueado me pede pra ficar na recepção, coisa que não é meu trabalho, e depois me da esporro por eu não saber vender.

Meu querido franqueado faz uma reunião informal quando um dos colegas falta para falar que não se pode faltar ao trabalho por coisas como sua mãe internada. “Precisa-se arrumar outra pessoa para ficar com a mesma. Nenhum patrão é tão compreensível quanto nós”.

Meu querido franqueado não contrata ninguém sem experiência. “Na minha escola é que não vai começar".

Meu querido franqueado me dá esporro por ser “amiguinha” das outras pessoas que trabalham na franquia. Meu querido também fala uma coisa para um professor e conta outra história pra outro tentando sair por cima, imaginando que ambos não se falam.

Meu querido franqueado certa vez se intrometeu no meu atendimento. Apontei a um aluno com atitudes machistas e misóginas que precisávamos repensar as atitudes em sala para evitarmos problemas (principalmente porque nesse ambiente existe uma menina menor de idade). O mesmo, irritado pelo meu apontamento, ameaçou cancelar a matrícula; meu querido franqueado então pediu desculpas ao mesmo pelo que falei.


Meu querido franqueado já melhorou de uns meses pra cá. Acho que não da pra reclamar.

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