Glória- um filme glorioso

O título é enganador. Ambíguo. Desconcertante. Tanto nos promete a glória de um gesto heróico e inesperado, como nos remete para os democráticos e irresistíveis 15m de fama televisiva vaticinados por Andy Warhol ou nos anuncia a não menos gloriosa vingança de um homem que há-de deixar o espectador (do espetador nada sei) no desamparo da dúvida. À porta de um final. À espera, como o marido de Julia Staykova.

Falo de “Glória”(Glory;2013), um filme da dupla de novos realizadores búlgaros Kristina Grozeva e Petar Valchanov que estreou entre nós no passado mês de Junho e só há dias tive oportunidade de ver. Confesso que fui ao cinema mais à procura de um momento de descontracção, do que motivada por uma qualquer informação crítica sobre o filme que, de resto, nem lera. Olhos limpos, como eu gosto. Talvez por isso tenha sido apanhada de surpresa por este filme intenso, aparentemente simples, que arrasta o espectador num turbilhão de emoções desde o primeiro minuto. Confirmando, uma vez mais, como muito do que de interessante se faz hoje em matéria de cinema passa à margem da poderosa indústria de Hollywood e da éfemera vertigem dos óscares.

O filme conta a história de um trabalhador ferroviário que encontra milhares de leves (moeda búlgara) numa linha de comboio e, surpreendido pelo achado, decide chamar a polícia. Como recompensa deste gesto de honestidade (mas também como forma de desviar as atenções de suspeitas de corrupção organizada que sobre ele pairam), o Ministério dos Transportes faz de Tzanko Petrov um herói nacional, com direito a homenagem pública, entrevista televisiva e oferta simbólica de um relógio de pulso digital.

Todavia, este gesto e este relógio vão fazer mudar de agulha a vida de Tzanko, até aí anódina e tranquila, deslizando sobre os carris da rotina, arrastando-o num vórtice de imprevistos de que há-de sair humilhado, sem rosto e sem dignidade. Neles se revela não apenas o desconcerto do título, mas os desacertos, diria, os desvios das linhas significantes que estruturam a narrativa. No relógio, em particular, já que nele se concentram, e ao mesmo tempo derretem, sentidos e expectativas de leitura, à semelhança dos famosos relógios do quadro de Dalì.

Desde logo, o desacerto de tempos entre a lentidão ritual dos gestos do mundo rural, pré-moderno, a que Tzanko pertence, e o mundo da hiper-modernidade acelerada a que pertence Julia Staykova, a chefe do gabinete de relações públicas do Ministério.

“Glory” é, com efeito, a marca do velho relógio de Tzanko, um relógio que “nunca se atrasa ou adianta” (ao contrário do que acontece com a réplica com que o pretendem silenciar ou com o relógio digital que lhe é oferecido), um instrumento de trabalho que mede com precisão não apenas o tempo e a cadência dos gestos quotidianos de Tzanko, mas também a distância que separa estes dois mundos. Ora é este relógio que Julia retira a Tzanko no início da cerimónia no Ministério (com a promessa de lho devolver no final), numa estratégia mediática e publicitária que visa realçar aos olhos da opinião pública a recompensa oferecida pelo governo.

A perspectiva do filme será búlgara, como pretende alguma crítica que entretanto fui ler (a Bulgária é um país a braços com um elevado índice de corrupção e de criminalidade organizada), mas nem por isso deixa de ser europeia, melhor ainda, ocidental. Pode ser periférica, mas talvez venha desse olhar marginal a acutilância na forma como toca e ilumina o centro, quero dizer, a norma, a ordem e o poder político ou económico sob os quais vivemos e dizem respeito a todos nós.

“Glória” fala-nos de um mundo mecanizado, certinho como o mecanismo de um relógio Patek Philippe, desses, diz a publicidade, de que “nunca somos verdadeiramente donos e apenas cuidamos para a geração seguinte”. Fala-nos de um mundo esvaziado de emoções, obcecado pela imagem e pela eficiência (ou pela excelência, tanto faz), por resultados e números (sejam eles traduzíveis em votos ou lucros), um mundo onde a desigualdade social se tornou gritante, onde as pessoas são tratadas como peças de uma engrenagem, retirando-lhes o que de mais humano nelas existe: o direito à dignidade, a uma história e uma memória, à intimidade, à palavra, às emoções.

Sentimo-nos, nós espectadores, por um instante, a cuidar do relógio de Tzanko para a geração futura, esse “Glory” que é afinal único e insubstituível porque nele está gravada uma frase que mais do que uma linhagem, é uma imperecível declaração de amor. Uma frase que faz do relógio um talismã para o humilde trabalhador, o seu mais precioso tesouro. Uma frase simples, mas capaz de dizer a indizível profundidade dos laços de afecto que marcam as horas do relógio familiar: “Para o meu filho Tzanko”.

O filme é, em meu entender, glorioso no desconstruir do registo épico para o qual o título parece convocar. Baralhando os dados, evitando a alegoria moral, social ou política, impedindo a glorificação do herói individual em luta contra o poder dominante (na definição clássica de um teórico das formas épicas, como Lukács) e a identificação do espectador. Tzanko é a vários níveis um anti-herói, limitando-se a reagir aos acontecimentos que o acaso lhe depara. A acentuada gaguez faz dele uma caricatura de si próprio, torna-o risível aos olhos do espectador, mesmo se o riso inicial depressa cede lugar ao esgar e ao silêncio, mantendo-o à distância. Mas é essa quase ausência de linguagem, esse lado quase não-humano que faz paradoxalmente sobressair a força brutal do que nesta máquina de trabalho subsiste (ia dizer, resiste) de humano: a sua relação sentimental com o relógio dado pelo pai, a eloquência silenciosa de uma frase que é toda a sua razão de viver.

Julia Staykova, na sua frigidez de cyborg de saias, cega na sua ambição de poder, é incapaz de perceber o drama de Tzanko. O seu desespero. A sua humilhação quando manda entregar-lhe um falso “Glory” julgando assim pôr fim à insistência do operário em reaver o relógio que Julia entretanto perdera.

Causa estranheza, para não dizer incomodidade, a forma como Julia se mostra insensível a tudo e a todos (médico e marido, incluídos) permanentemente conectada ao telemóvel no afã de controlar ao segundo toda a actividade do Ministério, descurando o relógio biológico e relegando para segundo ou terceiro plano o tratamento de fertilização “in vitro” a que estava a ser submetida.

Perder “Glory” é para Tzanko cortar para sempre o laço familiar que o une ao pai e à linguagem, enquanto que para Julia, o relógio é um mero objecto, o involuntário mostrador da sua incapacidade em assumir a maternidade (porventura o instrumento da sua tragédia).

Se já aqui se desenha uma certa relação quiasmática entre Tzanko e Julia, o percurso de aprendizagem que ambos irão sofrer encarregar-se-á de a confirmar. Julia há-de conhecer o remorso (e neste sentido, humanizar-se), procurando restituir a Tzanko o relógio que finalmente encontrara esquecido no carro. Tzanko, esse, há-de passar da mecânica docilidade inicial à violência animal que entrevemos no final do filme.

O filme não autoriza uma leitura ideológica, subvertendo categorizações, incluindo o tradicional conceito marxista da luta de classes, antes se constitui como uma poderosa e corrosiva história (ia dizer, sátira) sobre a crescente desumanização das nossas sociedades (Tzanko e Julia são ambos um produto dessa sociedade), sobre a profunda incomunicabilidade nesta sociedade da comunicação e de informação que cada vez mais, paradoxalmente, nos isola na carruagem vazia do nosso egoísmo, sobre a importância da memória e dos afectos num mundo que vive no deslumbramento do presente e onde as relações humanas parecem cada vez mais impossíveis.

Nestes dias velozes em que, como diria o poeta chileno Vicente Huidobro, “as horas perderam o seu relógio”, talvez este filme, nos ofereça uns minutos de glória. Quem sabe eles não nos devolvem os ponteiros do tempo.

Isabel Cristina Mateus

Written by

Ensaísta, professora universitária e investigadora.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade