Cavalheirismo Vs. Feminismo Vs. Machismo
Primeiro eu gostaria de dizer que eu não sei se sou feminista. Não por não acreditar na extrema importância do movimento, mas sim porque não quero me associar com alguns (majoritariamente algumas) fanáticos (novamente, majoritariamente fanáticas) que levantam a bandeira do movimento. Imagino que deva ser como um islâmico se sinta hoje. Ele quer apoiar a sua religião, mas não quer ser associado com o ISIS. Eu quero apoiar o feminismo, mas não que me coloquem ao lado de radicais. Ficou claro? Espero que sim.
Se bem que, aqui cabe mais um pequeno aviso, esse texto vai ser confuso. Muito provavelmente muito confuso, pura e simplesmente porque o tema ainda não está claro em minha cabeça. A confusão do texto serve para refletir a minha própria confusão interna.
Dias atrás pululou em minha timeline (devo dizer linha temporal?) no Twitter o seguinte texto: "Homem gentil pode ser machista 'disfarçado', diz estudo", ele então me levou ao seguinte artigo: "O cavalheirismo é nocivo às mulheres!", que por fim me levou para esse email: "Ele é super gentil… mas me despreza".
Resumindo rapidamente esses três textos, e acho que nem precisava fazer isso pois os títulos já deixam bem claro sobre o que eles falam, os artigos exploram como gentilezas, também chamadas de cavalheirismo, são na verdade um jeito de se reforçar a posição submissa das mulheres perante os homens. Minha primeira reação, óbvio, após as leituras iniciais foram rir de tamanha estupidez. Mas isso passou, e eu então me esforcei para tentar entender como alguém poderia achar gentilezas podem ser atos machistas. E, de forma chocante, eu consegui.

No "Homem gentil poder ser machista 'disfarçado', diz estudo" há um infográfico com várias situações, nem todas são consideradas como "cavalheirísticas", e uma explicação sobre como aquilo não é uma gentileza mas sim um ato sexista.
Eu não vou analisar um a um, tem alguns que são completos absurdos e se você pensa assim saiba que está errado. Por exemplo: Mulher nasceu para ser mãe: não, mulher nasceu para ser aquilo que ela quiser, se quiser ser mãe ótimo, se não quiser ótimo também, a escolha é pura e simplesmente dela. Mulheres tem que se dar o valor, já os homens podem curtir a vida: primeiro que curtir a vida é algo bastante abstrato, eu, pro exemplo, acho que curtir a vida é ficar sozinho em casa, tem gente que acha que curtir a vida é sair beber todo final de semana, a pessoa (homem ou mulher) tem que curtir a vida do jeito que achar melhor. Mulher precisa de um homem ao seu lado: primeiro que esse argumento é homofóbico, segundo que se não for comida, ar e água ninguém precisa de nada na vida, terceiro que mulher precisa de homem tanto quanto um peixe precisa de uma bicicleta*.
Já existem alguns outros pontos que eu acho que merecem uma discussão um pouco maior. Rachar a conta: acho que deve ser feito sempre, a não ser que de comum acordo se chegue a conclusão de que um (ou o homem, ou a mulher) é quem vai pagar, talvez em uma "estratégia" para que um próximo encontra aconteça (ela paga esse, ele paga o próximo). Ajudar nas tarefas de casa: eu discordo do peso que dão para a palavra ajudar no texto, a tarefa da mulher não é cuidar da casa, mas o casal deve sim se ajudar a manter a casa limpa, se não quiserem fazer isso que contratem alguém.
Mas tem um ponto que me incomodou bastante, muito porque eu não sei o que achar dele. De início foi o ponto que eu achei mais ridículo no texto, mas foi ele também que me fez pensar se eu não sou um machista "disfarçado" e se a minha concepção de cavalheirsimo não está levemente errada.

Sempre que eu saio com uma mulher, o que é um fato de extrema raridade em minha vida (e se for uma desconhecida ele então se torna ainda mais raro, a última vez que isso aconteceu foi no começo de 2014), abro a porta do carro para ela. Primeiro porque sempre me ensinaram que é isso que você deve fazer, segundo porque sempre imaginei que abrir a porta do carro fosse o "fica a vontade" que se fala quando alguém entra em sua casa. Mas o texto me fez pensar, me fez refletir, me fez ficar confuso.
A confusão vem do fato de minha certeza se aplicar apenas com mulheres, não que eu nunca tenha aberto a porta do carro para algum homem, mas é algo extremamente esporádico e muitas vezes completamente involuntário. O que é o exato oposto da minha atitudade para com as mulheres, eu sempre abro a porta para elas. E é exatamente isso que me deixa confuso.
Feminismo é dar direitos iguais para as mulheres, é tratar elas como se tratam os homens. E eu não estou fazendo isso neste caso. Neste caso eu estou tratando a mulher de forma diferenciada do tratamento que dou aos homens, mas será que isso é realmente machismo? Eu abro a porta não por achar que a mulher é incapaz de fazer isso por ela mesma, abro a porta não por achar que elas são fracas demais para fazer, eu abro a porta como uma gentileza. Mas se fosse uma gentileza não deveria fazer o mesmo com os homens? O fato de eu fazer algo com apenas as mulheres, mesmo que um ato tão pequeno e aparentemente inocente, me faz ser machista? Me faz ser um lobo em pele de cordeiro?
Uma parte de mim acha que não. Uma parte de mim acredita que estou sendo apenas gentil, apenas amável. Mas uma outra parte de mim acredita sim que estou sendo machista de forma velada. A dúvida é algo torturante. O que acham? Abrir a porta do carro, constantemente, apenas para mulheres é machismo? Sim? Não? Estou viajando ou estou vendo uma verdade oculta? Respondam, me ajudem a acabar com essa dúvida e, de forma direta e eindireta, me ajudem a ser um ser-humano melhor.
*Vi essa frase no filme The To Do List, uma pesquisa no Google me forneceu três autores: Bono Vox, Gloria Steinem, e Irina Dunn. Essa última, inclusive, é em quem eu apostaria como verdadeira autora da frase.