Como o Twitter quase partiu meu coração

#RIPTwitter veio e, felizmente, foi embora. Por um momento foi como ver sua namorada, sua noiva, sua esposa, a mulher de sua vida (dou exemplo com uma mulher pois sou um homem heterossexual, mudem ele para qualquer que seja sua preferência) beijando um outro homem bem na sua frente. Eu me senti arrasado em saber que o Twitter passaria a mostrar os tweets mais relevantes ao invés dos mais recentes, por sorte isso nunca aconteceu. Tudo não passou de um mal-entendido, na verdade o amor da sua vida estava apenas salvando a vida de alguém que havia se afogado através da respiração boca-a-boca.

Eu gosto muito doTwitter, talvez eu realmente ame a plataforma

O CEO do Twitter, Jack Dorsey, foi em sua conta e tranquilizou a todos, como eu, que se desesperaram com a possível mudança de paradigma da rede social afirmando que nunca pensaram em fazer a mudança do tempo real para os mais relevantes.

Pode soar como falso, pode soar como uma desculpa, nada disso realmente me interessa. O que importa é que, pelo menos por enquanto (e espero que continue assim para sempre), o Twitter não vai mudar a ordem dos tweets. E isso é ótimo, pois o grande diferencial do microblog é a ordem sequencial em que acompanhamos os eventos.

Mas acho que vale a pena olhar o porque desse boato ter começado, não em um julgamento apressado de um jornalista que talvez tivesse boas fontes, nem mesmo de um executivo que achava que os usuários aceitariam a mudança de forma pacífica e tranquila. Não, eu quero falar sobre a estupidez humana.

O Twitter só pensou, se é que pensou de fato, em mudar o jeito com que os tweets se apresentam para o público porque esse é o jeito do Facebook, uma rede social muito, muito, muito maior que o Twitter. Logo, a companhia menor, que quer crescer, olhou para o gigante e quis ser como ele. Mas porque, de fato, o Twitter é menor do que o Facebook?

Eu vejo muitos artigos comentando como o Twitter é ameaçador em um primeiro momento, como ele é confuso, como não é intuitivo, como as pessoas não se sentem a vontade com ele em um primeiro momento, e tudo que eu posso fazer é imaginar como as pessoas podem ser tão idiotas.

Eu tenho meu Twitter desde 2009, uma época ligeiramente anterior ao boom dos smartphones. Ou seja, era uma época em que usávamos a internet apenas nos computadores, ou seja, a parte de nossa vida dedicada ao ambiente virtual era quase que infinitamente menor da que a atual. Éramos menos familiarizados com a internet, com o seu funcionamento, com o seus meandros, do que somos atualmente. E, mesmo assim, nunca tive problema nenhum para usar o Twitter. E sabe porque? Pois ele é simples de ser utilizado.

Tal qual o Facebook você tem um campo de pesquisa para procurar quem quiser, ao achar a pessoa basta clicar follow e assim que esse perfil publicar algo no Twitter você vai ver. Exatamente como no Facebook, então como as pessoas podem achar que o Twitter é mais complexo, ameaçador e menos intuitivo do que a rede social do Mark Zuckerberg?

Achar que um é mais simples do que o outro, sendo que os dois são igualmente simplórios, só se explica se você for um idiota.

Eu sei encaixar as fuguras, independente de quais elas sejam, não estou bitolado em uma única solução

Saber usar o Facebook e não saber usar o Twitter é como se você soubesse resolver o enigma do brinquedo acima, mas não conseguisse encaixar as peças caso os triângulos fossem pentágonos, os círculos fossem paralelogramos, os quadrados fossem losangos e os retângulos fossem trapézios. É a mesma coisa, mas com outra roupagem! Basta deixar a preguiça mental de lado por um segundo, basta deixar de viver no automático por uma fração ínfima de tempo, para conseguir enxergar a igualdade das duas plataformas.

Eu não culpo o Twitter por querer mudar, eu acho que mudar faz parte do mundo e eles tem que fazer isso para continuar a serem relevantes na internet atual. Mas eu posso sim culpá-los por querer matar o que é o cerne da rede social. Acompanhar um evento ao vivo, junto com o Twitter, torna o próprio evento muito melhor. Da Copa do Mundo ao MasterChef Brasil, tudo fica melhor com o Twitter. Mas se os tweets parassem de ser os mais recentes, e passassem a ser os mais relevantes, perderia-se o imediatismo do acontecimento. Não se veria mais o que está sendo dito, passaríamos a enxergar apenas aquilo que algum algorítimo matemático diz que é o melhor. Isso tira das pessoas o poder de escolha do que realmente é bom, e o que é ruim. E isso é algo inadmissível.

O Twitter deve mudar? Sim. Mas não a sua essência. Ao invés da rede social mudar o seu padrão ao vivo, eles deveriam pensar em mudar suas campanhas. Os executivos não deveriam estragar a experiência de quem já usa o Twitter, eles deveriam sim se concentrar em mostrar para as pessoas preguiçosas e estúpidas que ao entrar microblog elas vão ter uma experiência semelhante a do Facebook, só que muito melhor. Porque vai ser uma experiência muito mais imediata, muito mais ao vivo, muito mais real e muito mais social.