Eu, saudável?

Pedalo oito quilômetros de segunda à sexta-feira, e dez quilômetros nos finais de semana. Faço musculação todos os dias, e pilates nas segundas, quartas e sextas-feiras. Mesmo assim não sou saudável.


Durante a minha vida eu sempre alternei entre dois tipos de corpo, três contando o atual: gordinho (caminhando pro gordo) e muito magro. Quando bebê eu era magro, engordei na infância e entre a pré-adolescência e adolescência eu era semi-raquítico. Lá pelos 18 anos comecei a engordar e atingi o maior peso da minha vida, aos 21 comecei a emagrecer e hoje mantenho um peso constante.

Esse sou eu em 2006 / Créditos: Iagho Amaral Galli Izidório
Como eu disse, semi-raquítico / Crédito: Iagho Amaral Galli Izidório

Em 2006 eu era muito, muito, muito magro. Lembro uma vez, depois de anos, ter visto uma foto do meu rosto nessa época, pena que eu não tenho esse retrato, e me assustar com a minha magreza. Eu parecia doente, e não é exagero de minha parte falar isso. Vamos avançar no tempo quatro anos:

Olha o tamanho da barriga! E isso era depois do futebol e antes da pizza, ou seja, eu era ainda mais gordo. Essa foto foi tirada em 2010, nos anos subsequentes eu vim a engordar ainda mais. / Crédito: Lucas Cassias (provavelmente)

Os anos não foram gentis com o meu peso, ou talvez tenham sido até demais. Talvez meu corpo, notando que sua aparência era de um doente, tenha decidido que eu precisava engordar. O problema foi que ele não teve noção do quando eu teria que engordar. Entre dois e três anos depois eu cheguei no meu peso máximo: 90 kg. Eu não era realmente gordo, mas eu estava muito bem encaminhado.

Mas claro que há uma explicação para o ganho excessivo de peso. Até 2006/2008 eu era uma pessoa muito ativa. Fazia natação duas vezes na semana, treinava futebol em escolinha mais duas (alimentando o sonho de ser jogador de futebol, nem preciso dizer que isso não deu certo), também jogava futebol na educação física na escola, algumas vezes jogava também no recreio/intervalo, e também entrava em campo com o meu pai. Eram muitas atividades. Depois desses anos larguei a natação, fiquei velho demais para a escolinha, entrei na faculdade e o futebol com o meu pai passou a ser cada vez menos constante. Eu parei de me exercitar mas, e aqui começa meu drama, eu continuei a comer como comia.

No dia que me pesei e vi os noventa quilos piscando em letras vermelhas, quase como se fosse um aviso emergencial, eu decidi que precisava fazer alguma coisa para mudar aquela situação. Eu estava quase com cem quilos! Isso são três dígitos, antes da vírgula, na balança. Algo tinha que mudar, eu precisava mudar. Comprei uma bicicltea, entrei no pilates três vezes na semana (eu era gordo por ser sedentário, e ser sedentário me dava uma dor nas costas inacreditável, eu precisava me alongar), e comecei a comer menos. No começo foi tudo muito bem, muito fácil… No começo.

Lasanha é o meu prato favorito de todos os tempos

Enquanto a minha lembrança do meu peso, e também meu desespero por estar com quase 100 kg, estavam vívidos em minha memória eu consegui ser mais saudável, eu consegui comer menos. Muito menos. Eu nem parecia ser eu mesmo. O problema é que o peso começou a baixar, fui me sentindo melhor, o desespero passou e eu voltei a meus hábitos alimentares questionáveis. Foi nessa época que eu, basicamente, comecei a comer um quilo de comida no almoço. Prova 1; prova 2; prova 3.

E sabe porque eu faço isso? Porque eu amo comer! Pura e simplesmente isso! Eu vivo para comer (e ler). Comer é muito bom, comer acalenta, quando eu como meu corpo deve liberar endorfina e seratonina, comer é o meu maior prazer na vida. Pena que me faça mal.

Pois bem, voltei a engordar. Foram apenas dois quilos, mas foi o suficiente para que eu, me conhecendo, ligasse uma luz de alerta. Voltei a controlar a quantidade de comida, parei com os almoços de um quilo, e acrescentei mais exercícios a minha rotina. Exercícios caseiros mesmo, e mantive o pilates três vezes por semana e adotei, ainda mais, a bicicleta como meio de locomoção. Claro que voltei a emagrecer, e claro que voltei a comer.

Eu tenho que reconhecer, sou viciado em comer.

O peso voltou a aumentar, um mísero quilo dessa vez, mas estando atento voltei a me controlar. Parei com os doces completamente, o que foi um tortura inacreditável no começo, e passei a fazer os exercícios caseiros com ainda mais regularidade (parei de inventar desculpas para não fazer) e mais intensidade. Emagreci o um quilo que havia ganhado. Consegui estabilizar meu peso em 70 kg, perdi vinte quilo em dois anos, mas a comida de novo começou a me seduzir.

Porém, dessa vez, sabendo que eu ganharia peso se começasse a comer o quanto eu gosto de comer, confesso que fraquejei nos doces, me precavi e comecei a fazer musculação. Que é um exercício mais puxado que os caseiros. Esses, aliás, eu parei.

Dias de hoje, a camiseta é a mesma que estava usando na foto de 2010 / Crédito: Giovani Izidório Cesconetto

Hoje minha vida de exercícios é bastante regrada, e talvez até mesmo bastante puxada (julguem pelo que escrevi no começo). Mas então como posso não ser saudável? Muito simples, eu só faço tudo isso para continuar podendo comer. Eu não consigo trocar uma lasanha por uma salada, aliás, eu nem como salada. Todos os dias consumo gorduras e frituras, odeio coisas integrais, e o máximo de fruto que como é no suco. Sempre que eu como é muito, e nunca é nada que mereça a alcunha de saudável. Eu só faço tanto exercício para poder continuar a comer como eu gosto.

Eu me exercito sem ser saudável, pura e exclusivamente por ser viciado em comer.