As redes de ódio na Internet

O ódio está presente o tempo todo. As redes sociais multiplicam isso. A facilidade de comunicação, por vezes uma ferramenta do bem, interconecta e amplifica vozes odiosas que por sua vez atingem sem cerimônia qualquer um que esteja em sua frente. Nesse processo, aqueles mais fracos que já possuem sua simples existência suprimida cotidianamente, quase sempre são atingidos.

Quis escrever esse texto quando me deparei com um perfil no Twitter, o qual não mencionarei o nome, que compartilha fotos “antes/depois” de alunos de universidades federais. Tipo um antes da federal/depois da federal, como se a universidade fosse a única responsável pela mudança das pessoas. O perfil apenas publica a foto sem nenhuma legenda, logo, no ponto de vista deles, não há qualquer ironia ou ridicularização das pessoas, tendo em vista que a interpretação é subjetiva.

Não me espanta que as pessoas expostas são em sua totalidade mulheres que se intitulam feministas, homens e mulheres homossexuais, homens e mulheres negros, homens e mulheres transexuais e pessoas com aparência fora do padrão social. Como eu disse anteriormente, a rede de ódio parece ter certas preferências.

A rede de ódio não tem piedade, ela age inconsequentemente, selecionando fatos que lhe convêm. Ela desconsidera um caminhão de dificuldades, tropeços, tapas na cara, vitórias e conquistas, que ocorreram entre o antes e o depois. Ela é egoísta, é baixa, joga sujo. Seu objetivo não é muito claro quando a olhamos diretamente, mas ele é muito simples: afirmar uma suposta superioridade entre o emissor em relação ao receptor. Talvez por isso a preferência pelas minorias. É mais fácil se afirmar perante o lado mais fraco.

É importante perceber essas redes que se formam. Como eu disse, o ódio está presente o tempo todo e sua origem não pode ser nenhuma senão nós mesmos (sim! eu, vc, nós todos). Por mais bondosos que sejamos, mesmo com todo amor em nosso coração, é intrínseco ao nosso ser uma vontadezinha de ser superior que se aflora em determinados momentos, de diferentes formas em diferentes pessoas. E agora estamos todos cada vez mais conectados, o que significa que pequenas “vontadezinhas” encontram outras “vontadezinhas” que crescem e se espalham cada vez mais, saindo do nosso controle. É importante perceber nossos papéis de receptores e emissores nessas redes. Se aprendermos a nos colocar dentro delas, podemos fazer coisas incríveis. Pois ao mesmo tempo que o ódio está presente o tempo todo, o amor, a alegria, a felicidade e a vontade de progredir também estão.

No final percebemos que por trás desse perfil do Twitter existe só mais uma pessoa onde a “vontadezinha” floresceu e se juntou com outras em forma de retweets, compartilhamentos e likes. Essa amplificação capaz de ferir e magoar muitas pessoas, de forma séria, surgiu da vontade de outras pessoas de se sentirem superiores por um momento, com um simples retweet, um simples like. Percebe como é sutil?

Percebe?

As perguntas que ficam são: como você se comporta quando sua “vontadezinha” aflora? Onde você usa o seu poder de amplificação nessas redes? Você ja parou pra pensar onde o seu like, o seu post ou o seu compartilhamento podem chegar?

É bom destacar que não estou dizendo que qualquer um de nós em um “momento de ódio” vai criar um perfil pra expor pessoas inocentes. Afinal, a “vontadezinha” se aflora de maneiras diferentes em contextos (vivências) diferentes. Mas posso te garantir que todos fazemos parte dessa(s) rede(s). E é óbvio, se não está claro até aqui, que essas redes não são exclusivas do mundo virtual que nós criamos, mas sim espelhos (ou evoluções?) das interações humanas que sempre estiveram presentes no mundo físico.

Às pessoas que foram atingidas nesse caso específico (mas que se estenda para outras vítimas também), é importante correr atrás dos seus direitos, se for esse o seu desejo, se você achar que é a coisa correta a se fazer ou se você se sentir melhor dessa forma. Porém, mais importante do que isso é perceber e se orgulhar do seu processo de transformação. Só você sabe o que passou para sair do seu antes e chegar no seu depois. Tenha consciência disso e seja feliz. Feliz com suas escolhas, feliz com as escolhas da vida (se você acreditar nisso) e feliz com sua existência. Nenhuma atitude de ódio pode tirar isso de você.

E para todos nós: vamos viver com mais harmonia.

Dedico esse texto ao mestre Gustavo Hilário (Gusteivo)