Resultado abaixo da meta é prova de investimento errado

Robson Conceição é mais um medalhista brasileiro que encontrou acesso ao esporte por meio de um projeto social. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

A apresentação do Plano Brasil Medalhas, no site do Ministério do Esporte, comprova que a melhor participação do Brasil na história dos Jogos Olímpicos foi pouco. Está lá, até hoje, para quem quiser ver: “O Plano Brasil Medalhas 2016, lançado em setembro de 2012, tem como objetivo colocar o Brasil entre os 10 primeiros países nos Jogos Olímpicos e entre os cinco primeiros nos Jogos Paraolímpicos do Rio de Janeiro, em 2016”.

A meta, repetida à exaustão pelo Comitê Olímpico Brasileiro (COB) nesses quatro anos, era de que o Brasil ficasse no top-10 considerando o total de medalhas. No fim das contas, a delegação nacional foi 13º lugar no quadro geral, com 19 pódios, sendo 7 ouros, 6 pratas e 6 bronzes. Faltaram três medalhas para que o País alcançasse o 10º lugar.

Seria muito fácil culpar o não cumprimento da meta às modalidades nas quais o Brasil decepcionou no Rio. Por exemplo, o judô, da qual se esperavam cinco medalhas e só vieram três (Sarah Menezes, Érika Miranda, Victor Penalber e Maria Suelen eram cotados e não conseguiram medalhar). Ou então a natação, que saiu zerada do Estádio Aquático, com os candidatos Thiago Pereira e Bruno Fratus terminando “apenas” como finalistas. Ou ainda o vôlei feminino, do qual se esperava, pelo menos, uma final, mas que acabou ficando nas quartas. Mesma fase em que caiu a dupla Bruno Soares/Marcelo Melo, cabeça-de-chave número 2 do torneio olímpico de tênis.

Outra possível saída para explicar o resultado abaixo do esperado seria dizer que a meta era muito audaciosa — como, aliás, fez o COB —, considerando que o Brasil nunca havia passado do 15º lugar no quadro de medalhas (colocação conquistada na longínqua Antuérpia/1920, quando bem menos países disputavam a Olimpíada) ou do 16º lugar (em Londres/2012, este de comparação possível). Balela. De Londres para o Rio, o Brasil cresceu apenas 11,8% no total de medalhas conquistadas. Ou seja, o fator sede e a multiplicação de investimentos neste ciclo olímpico pouco ajudaram, como mostra o levantamento abaixo, feito pelo 2016 Todo Dia.

Apenas três países-sede haviam crescido menos do que o Brasil em relação à Olimpíada anterior (arte: 2016 Todo Dia)

Desde os Estados Unidos, em 96, um país-sede não apresentava uma evolução tão pífia no quadro de medalhas. Na verdade, os norte-americanos regrediram de Barcelona/92 para Atlanta/96 por um motivo muito claro. A dissolução da Comunidade dos Estados Independentes (CEI) em vários países autônomos perante o COI criou mais medalhistas em várias modalidades, tornando a vida estadunidense muito mais difícil (por exemplo, na ginástica artística, em vez de ter apenas os atletas da CEI, Atlanta viu várias finais com russos, ucranianos e bielorrussos, ou seja, os donos da casa tiveram mais rivais nesta e em outras modalidades).

Justificada a regressão americana em 96, o quadro de medalhas olímpico encontra apenas dois países com desempenho mais fraco que o Brasil. A Finlândia, que só cresceu 10% ao sediar os jogos de 1952, e a França, que regrediu de 1920 para 24. No caso francês, mais uma vez, há um atenuante: na Antuérpia/20, foram distribuídas 156 medalhas, disputadas por 29 países. Em Paris/24, foram 126 medalhas, em disputa por 44 países. Ou seja: a competição na capital francesa foi menor e mais acirrada do que quatro anos antes. Resumo: na real, o Brasil só foi um anfitrião melhor que a Finlândia (e olhe que de Londres/48 para Helsinque/52, o número de países nos jogos subiu de 59 para 69, sendo que o número de medalhas em jogo também aumentou de 136 para 149).

Sem acesso universal ao esporte, não adianta

Na verdade, o baixo crescimento do Brasil tem uma raiz muito mais profunda: a falta de uma política de acesso universal ao esporte no País. Para ser atleta de alto rendimento no Brasil, via de regra, é preciso ter dinheiro e/ou sorte. A (inexistente) política esportiva nacional é baseada em clubes, aos quais para ter acesso é preciso pagar caro. Ou seja, privilégio de uma minoria.

Rafaela Silva, nascida na Cidade de Deus, foi descoberta graças ao Instituto Reação, mantido pelo ex-judoca Flávio Canto. Foto: Márcio Rodrigues/CBJ

Quem não tem grana, consegue chegar lá graças a projetos sociais mantidos por abnegados, por meio dos quais são descobertos fenômenos como a judoca Rafaela Silva e o boxeador Robson Conceição, ambos medalhas de ouro na Rio 2016.

Com o acesso ao esporte restrito, fica difícil descobrir atletas de alto rendimento. Programas como o Brasil Medalhas, criados para apoiar atletas de alto rendimento durante os últimos quatro anos, ou mesmo o Bolsa Atleta, que existe desde 2005, são importantes, mas atingem um público muito restrito. Ajudar competidores profissionais a se manter é importante, porém, mais ainda seria garantir que toda criança e adolescente pudesse praticar o esporte pelo qual tivesse interesse na cidade onde moram.

Enquanto o esporte no Brasil segue um privilégio para poucos, nosso desempenho no quadro de medalhas olímpico segue tão minguado quanto. E convenhamos, há outras prioridades por aqui do que ser top 10 do mundo esportivo. Garantir a todos os benefícios que o esporte proporciona, por exemplo, seria uma vitória social muito maior.