A morte do metal como o conhecemos — e por que isso não é o fim do mundo.

Antes de começar o texto, uma pergunta fundamental: o que é o metal para você? Quais bandas são a personificação desse gênero musical tão apaixonante? Excluindo o Black Sabbath –a mãe e o pai do gênero- dessa descrição, certamente caímos em algum dos seguintes nomes: Metallica, Iron Maiden, Megadeth, Judas Priest, Slayer… Correto? São gigantes incontestáveis desse estilo tão cultuado, com praticamente três gerações de fãs fieis que lotam estádios, arenas e festivais mundo afora há mais de 30 anos. Mesmo depois de tanto tempo, com tantos álbuns nas costas e superando percalços internos e externos, essas bandas continuam na ativa, rodando o planeta com suas incansáveis turnês e lançando material novo (obs: todas as bandas citadas lançaram um álbum de inéditas entre 2014 e 2016). Então, como assim, um zé ninguém se atreve a escrever um texto dizendo que o metal clássico, representado por essas bandas, está morto? Iniciemos nossa análise, então, dissecando calmamente as características comuns entre as obras recentes desse quinteto de peso.

Hardwired To Self-Destruct, do Metallica (2016); Dystopia, do Megadeth (2016); The Book of Souls, do Iron Maiden (2015); Redeemer of Souls, do Judas Priest (2014); Repentless, do Slayer (2016). Álbuns com propriedades musicais, inspirações e contextos que diferenciam uns dos outros. Mas é possível fazer uma descrição que se aplica a todos eles: álbum muito bem executado tecnicamente pelos seus excelentes músicos, tentando seguir a velha fórmula que consagrou a banda nos seus tempos áureos e agradando os milhões de fãs, ao mesmo tempo em que soa como um produto da zona de conforto, sem inovação ou inventividade.

Ouvir um desses álbuns passa a sensação nostálgica de estar retornando para aquela velha casa de infância onde se foi muito feliz há décadas, mas a sensação seguinte é a de estagnação. A casa permanece da mesma maneira que foi deixada, o que significa que a velha TV tubão de 14 polegadas continua lá, ao lado daquela máquina de datilografia e em cima daquela estante que você já cansou de ver. Esse eterno Feitiço do Tempo™ que parece ter capturado os maiores representantes do metal impacta uma das particularidades fundamentais do gênero: o poder de despertar a paixão de novos amantes da música. Nenhuma Moth Into Flame, Speed of Light ou Fatal Illusion conseguem empolgar um novo ouvinte da mesma maneira que Master of Puppets, The Trooper ou Hangar 18 conseguem. Por mais que a falta de elementos novos não incomode (pelo contrário, parece agradar) os fãs mais ferrenhos, ela nos faz, inevitavelmente, questionar a capacidade atual desse velho metal de inspirar as novas gerações da mesma maneira que inspirou a nossa. E quando um movimento artístico perde a inspiração, a sua sentença de morte está assinada.

Mas, calma. Antes que os amantes de música que -assim como este que vos fala- cresceram cultuando os grandes clássicos da história do metal entrem em desespero, voltemos nossos olhos para o passado recente.


Os anos 90 foram um divisor de águas para o metal. A ascensão do grunge, associada à forte influência que as grandes gravadoras ainda exerciam sobre os músicos e ao momento turbulento que as grandes bandas dos anos 70 e 80 viviam culminaram num declínio momentâneo do gênero. Com exceção do Pantera, o metal clássico parecia minguar. Surpreendentemente para alguns, essa “crise” foi a condição ideal para a derrubada de alguns dogmas que definiam o que era permitido no metal e bandas geniais surgiram a partir daí.

Não é coincidência que os principais álbuns de metal do século XXI tenham sido feitos por bandas pouco ortodoxas. A evolução constante do Deftones, desde o seu debut como rap rock em 1995, culminou num estilo único e inimitável –quase um “metal psicodélico”, por vezes- que une melodia e peso de maneira difícil de descrever, mas facilmente compreensível durante a audição de ábuns como White Pony e Diamond Eyes. Por sua vez, o System of a Down misturou metal extremo com influências de música folclórica do leste europeu e rapidamente angariou uma legião de jovens fãs sedentos por música pesada de qualidade. Da França, veio o Gojira com o seu death metal progressivo irrepreensível, extremamente técnico e brutal, nos brindando com pérolas como o massivo álbum From Mars To Sirius (se ainda não conhece, a hora é agora). Por fim, o tão criticado –às vezes com razão- Avenged Sevenfold amadureceu com o passar dos anos e se tornou uma banda que une técnica, juventude e influências variadas como poucas bandas atualmente conseguem, nos apresentando álbuns ambiciosos e populares como os relativamente recentes Nightmare e The Stage.

Bandas como Deftones, Gojira, System of a Down e Avenged Sevenfold, apesar de excelentes e inovadoras, nunca foram unanimidades ou dignas de culto como os gigantes das décadas anteriores. Pelo contrário, são bandas questionadas e até mesmo perseguidas por alguns fãs que as acusam de não serem “metal de verdade”, argumento que relega a um nível inferior qualquer banda que ouse agregar novas referências e revigorar o gênero. Essa espécie de fundamentalismo musical que parte dos setores mais conservadores do metal enfraquece o estilo, não apenas impedindo que bandas novas cresçam e alcancem o status de headliner pelos festivais mundo afora, mas também inibem que as bandas clássicas busquem uma evolução no seu som, provocando a já citada estagnação e ameaçando o futuro do metal.

A convergência de gêneros enriquece qualquer estilo musical, e não é diferente aqui no nosso clubinho das camisas pretas. Enquanto as bandas clássicas insistem no mais do mesmo, existe uma geração inteira sedenta por música nova, criativa e pesada que não sentirá nenhuma atração por “Hardwireds” da vida. A boa notícia é: música nova, criativa, pesa e boa é o que não falta por aí, e o sucesso dela só depende de nós. O fim do conservadorismo e a abertura das nossas mentes para as bandas novas e diferentes que existem por aí é a única maneira de perpetuar o estilo e continuar inspirando mais pessoas a amar esse gênero maravilhoso.

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