“A Chegada”, ficção científica que surpreende e emociona

Por Nanda Fontenelle

Fotos: Paramount Pictures/Divulgação

Entre os aspectos mais fascinantes da ficção científica, seja no cinema ou na literatura, está sua capacidade de usar elementos que “não existem” para traçar um retrato fiel — e, muitas vezes, incômodo — da espécie humana. Desde o Frankenstein de Mary Shelley, obra literária considerada a primeira do gênero, autores, roteiristas e diretores inventam de novas tecnologias a civilizações curiosas, com o objetivo de levantar questionamentos sobre o nosso papel na Terra e no Universo.

Em um ano de poucos, porém importantes, lançamentos sci-fi — do decepcionante Independence Day: O ressurgimento ao delicioso Star Trek: Sem fronteiras, e ainda com a expectativa por Rogue One: Uma história Star Wars –, A Chegada, que estreou nos cinemas nacionais no último dia 24, foi uma bem-vinda surpresa. No melhor estilo “filme para pensar”, o longa do cineasta canadense Denis Villeneuve (Sicario: Terra de ninguém) alia uma protagonista mergulhada em seus dramas pessoais, uma civilização extraterrestre com propósitos obscuros e uma trama um tanto técnica, mas nem por isso menos envolvente.

Quando doze naves se aproximam da Terra em locais aparentemente aleatórios, governos e militares de todo o mundo formam uma rede de comunicações para tentar descobrir o que os ETs pretendem em nosso planeta. Aparentemente alheia entre um passado triste e um presente vazio, a linguista Louise Banks (Amy Adams) é convocada para integrar a equipe norte-americana que tenta abordar os alienígenas. Para decifrar as intenções dos visitantes — a princípio, suficientemente amigáveis — a intérprete se lança à tarefa de aprender seu idioma, possibilitando a comunicação entre as duas espécies.

Baseado no conto Story of Your Life, do escritor estadunidense Ted Chiang, A Chegada não é apenas um filme, mas uma aula de como fazer cinema: usando menos efeitos visuais e mais jogos de câmera, uma montagem genial e uma poderosa trilha sonora, Villeneuve consegue inserir o espectador na cena sem precisar de óculos 3D. Muitas vezes claustrofóbico, mas sempre deixando clara nossa pequenez diante do desconhecido, o longa lembra Contato, de Robert Zemeckis, versão cinematográfica do clássico de Carl Sagan.

Embora os aspectos técnicos sejam absolutamente primorosos, porém, é inegável que o coração do filme é Amy Adams. Entre o gigante Forest Whitaker (O Último Rei da Escócia) e a boa atuação de Jeremy Renner (Os Vingadores), a atriz carrega nas costas todo o peso dramático da narrativa, e não será nenhuma surpresa se a ficção lhe render sua sexta indicação ao Oscar.

Discutindo do estudo da linguagem à percepção do tempo enquanto passa por uma escolha fundamental da vida de um ser humano, A Chegada empolga, surpreende e emociona. Na sala de cinema, perdemos a noção das horas, e ao sair dela, levamos muito do filme conosco, para processar aos poucos, como Louise decifra o idioma dos aliens. Sem dúvida, uma das melhores produções de 2016.