As mulheres de Game of Thrones e sua ascensão no “grande jogo”

Por Mari Frazão

SPOILER ALERT: Este texto contém spoilers do final da 6ª temporada de GoT.

Game of Thrones é um dos seriados mais controversos de todos os tempos. O folhetim da HBO, baseado na série de livros As Crônicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin, segue um estilo peculiar: Martin escreve friamente, sem pudores nem apegos, e é conhecido por aniquilar personagens sem nenhum remorso. Apesar da trama contar com elementos fantásticos como zumbis, gigantes e dragões, a obra é ambientada em uma época muito semelhante ao nosso período medieval. Embora a fórmula que mistura fantasia e um realismo cru tenha transformado Game of Thrones na série de maior audiência da HBO, desde a primeira temporada Martin provoca todo tipo de reações revoltadas com a narrativa.

Uma das críticas recorrentes à obra refere-se ao tratamento dispensado às suas personagens femininas. Peça-chave na trama, Daenerys Targaryen foi uma das primeiras personagens a gerar indignação no público: logo na primeira temporada, a jovem e maleável Dany foi submetida a abusos verbais e sexuais nas mãos de um irmão sádico e insensível, e depois entregue a um selvagem desconhecido, em um casamento arranjado em troca de uma aliança militar. Embora a Mãe dos Dragões tenha dado a volta por cima ainda no começo do romance, a exibição constante de cenas de nudez e sexo — muitas vezes sem contexto ou justificativa — e as trajetórias de outras personagens continuaram fornecendo combustível às acusações de machismo que pairam sobre o seriado.

A outrora inocente Sansa Stark, por exemplo, ao longo de cinco temporadas foi enganada e desonrada pelas mãos mais cruéis dos Sete Reinos. Para sobreviver, a filha mais velha de Ned Stark precisou aprender a ser mais esperta que seus adversários, mas nada a preparou para o ápice de seus infortúnios: traída e entregue ao invasor de suas terras, Sansa acabou sendo violentada em sua “noite de núpcias” com o sociopata Ramsay Bolton. Depois de uma cena dolorosa de assistir, e que divergia drasticamente da história traçada nos livros, a caixa de e-mails de George Martin pipocou com inúmeras mensagens horrorizadas. A senadora democrata americana Claire McCaskill desistiu abertamente de acompanhar a série: “Ok, eu desisto de ‘Game of Thrones’. Cena gratuita de estupro nojenta e inaceitável.”, escreveu em seu Twitter.

Embora Cersei Lannister seja um dos personagens mais detestáveis da série, seu destino também gerou manifestações de revolta quando a rainha foi estuprada pelo irmão e amante Jaime Lannister ao lado do corpo do filho mais velho. Temporadas mais tarde, o script voltou a meter o dedo na ferida ao representar a personagem em sua caminhada de penitência, nua e humilhada em meio a uma multidão raivosa.

Entretanto, após o season finale da sexta temporada, no último domingo (26), o seriado entrou em hiato com um episódio épico que depositou o destino de Westeros nas mãos de suas mulheres. Arya Stark, apesar de todos os infortúnios, nunca abandonou sua essência — e agora é uma assassina treinada, pronta para vingar sua família e retomar as rédeas de sua história. Mesmo abatida após a morte dos três filhos, Cersei finalmente deixou de ser uma vilã arrogante, mas incompetente, e encarnou a fortaleza de uma rocha. Sansa não é mais uma garotinha frágil que sonha em casar com o príncipe, e sim uma mulher firme, que confronta seus inimigos frente a frente, questiona o irmão quando não é ouvida nos planos de batalha e toma suas próprias decisões, mas ainda se mantém justa e gentil. Lyanna Mormont, não mais que uma criança, é um exemplo de inteligência, lealdade e liderança feroz; sua curta participação nesta última temporada foi suficiente para conquistar uma legião de fãs. A matriarca Ollenna Tyrell é desde sempre uma mulher que não baixa a cabeça. A letal Ellaria Sand é categórica quando diz que homens fracos nunca mais governarão Dorne, e não deixa a menor dúvida de que suas Serpentes da Areia cumprirão a promessa. Yara Greyjoy lidera um povo com tradição em roubar, matar e estuprar, mas nunca se curvou para homem nenhum. Embora sua reivindicação inédita ao Trono de Sal tenha dado errado por enquanto, tudo indica que ela vai revolucionar as Ilhas de Ferro.

Finalmente, Daenerys Targaryen já provou repetidas vezes que faz jus aos tantos títulos que acompanham seu nome. Armada com seus dragões, uma horda Dothraki, um exército de escravos libertados e uma esquadra que ainda deve aumentar, nossa Khaleesi está a poucos passos de invadir Westeros para retomar seu trono e como disse no episódio 9, deixar o mundo melhor do que o encontrou.

Como o sexto livro de George R. R. Martin ainda não foi publicado e o autor ainda precisa escrever mais um para completar sua saga, demoraremos um pouco a saber se sua intenção sempre foi colocar seu mundo fictício nas mãos de tantas mulheres empoderadas. Também não temos como garantir se a HBO planejou essa reviravolta desde o início, ou se a produção mudou seus rumos diante das críticas, acirradas principalmente ao longo da quinta temporada. O fato é que as mulheres de Game of Thrones nunca foram coitadinhas: a violência do seriado é um retrato fiel da violência humana e, apesar dos elementos fantasiosos, o universo criado pelo autor representa muito bem o nosso mundo com todos os seus defeitos. Como também acontece fora das telas, as mulheres desse universo passaram de criaturas oprimidas a seres independentes que lutam pelo seu espaço. Depois das reviravoltas da última temporada, a série deixou claro: o jogo, agora, é das mulheres.

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