“Câmara de Espelhos”: documentário pernambucano denuncia violência contra a mulher no dia a dia

Por Fernanda Fontenelle

Estreou, na última quarta-feira (21), em sessão especial no 49º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o documentário Câmara de Espelhos, primeiro longa metragem da cineasta pernambucana Dea Ferraz. Nessa mesma data, o New York Post, um dos jornais de maior circulação nos Estados Unidos, ilustrou sua matéria de capa, a respeito da separação do casal Angelina Jolie e Brad Pitt, com uma foto de Jennifer Aniston, ex-mulher do ator, dando uma gargalhada.

Há cinco ou dez anos, talvez a abordagem do tabloide não tivesse tanto impacto. Em pleno 2016, a representação de uma das atrizes mais bem sucedidas de Hollywood como uma mulher rancorosa e amargurada, capaz de esperar 11 anos para rir do fim do casamento do ex, provocou reações negativas nas redes sociais em todo o mundo. No entanto, não faltou também quem achasse a tirada do periódico simplesmente genial. A “piada” do New York Post é apenas mais um exemplo das pequenas violências cotidianas que as mulheres sofrem apenas por serem mulheres — e, como tantas outras agressões, muitas vezes é sequer compreendida como tal. A inquietação por esta condição é o mote do novo trabalho de Dea Ferraz.

Câmara de Espelhos se inicia com um anúncio no jornal: convocam-se homens entre 18 e 80 anos interessados em expor suas opiniões e reflexões na tela do cinema. Entre os candidatos selecionados, grupos de sete homens são conduzidos para o cenário — uma sala octogonal com uma televisão e janelas de vidro fumê em todos os lados — e convidados a discutir as diferentes imagens exibidas na telinha. Dentro desta caixa escura, dois grupos, alternadamente, assistem a performances de comediantes brasileiros, vídeos do YouTube, registros de manifestações feministas, cenas de novelas, noticiários de televisão. Entre os participantes, homens de diferentes idades, graus de escolaridade e classes sociais discutem suas visões sobre sexo, casamento, tarefas domésticas, aborto, estupro, feminismo e assuntos correlatos.

O debate, uma simulação “em laboratório” das clássicas conversas de mesa de bar, é potencializado pela construção singular do documentário. Embora nenhuma mulher apareça em cena, elas estão sempre presentes. Quem conduz os homens à caixa escura é a atriz recifense Bella Maia, de quem ouvimos apenas a voz. Em certos momentos, a tela escurece, e o telespectador ouve instruções da diretora sobre ajustes de câmera ou sobre os próximos vídeos a serem exibidos. Um dos participantes, na realidade um ator “infiltrado”, recebe orientações para se posicionar ou não, acirrando ainda mais a discussão. A caixa escura, rodeada de janelas, deixa claro que os homens lá dentro estão sendo observados. E se, a princípio, os envolvidos se mostram acanhados e relutam em expor suas opiniões, com o passar do tempo — foram gravados seis encontros com cada grupo masculino — eles se sentem mais confortáveis para declarar abertamente suas posições sobre os temas propostos.

Ao proporcionar às mulheres telespectadoras a impressão de estar observando a reunião de perto, através das janelas, o resultado não é menos que assustador. Do homem de bengala, beirando os 80 anos, que diz que seu sonho é se casar novamente com “uma mulher de uns 45 anos, muda, surda e boa doméstica, porque está muito caro contratar uma doméstica” ao jovem que afirma que não pode condenar o homem que mata a companheira ao descobrir uma traição, devido ao seu estado de “vulnerabilidade emocional”, quase todos os convidados expõem visões machistas e objetificadoras. Até mesmo aqueles que, a princípio, adotavam discursos igualitários, em algum momento parecem esquecer das câmeras e das mulheres à sua volta e resvalam em pensamentos retrógrados.

Não é fácil ser mulher. Já foi mais difícil, certamente; não podemos negar que colecionamos conquistas ao longo do último século. Mas a violência cotidiana, explícita nas incontáveis denúncias de estupro que hoje assombram a capital pernambucana, ainda começa nos discursos teoricamente inocentes. No país onde um em cada três habitantes concorda que “a mulher que usa roupas provocativas não pode reclamar se for estuprada”, filmes como o de Dea cumprem seu papel de incomodar. Ao enfiar o dedo na ferida, muitas mulheres podem sair da sala de projeção machucadas. Espera-se, porém, que a sensação dolorosa provocada por Câmara de Espelhos funcione como um catalisador de reações; que o transtorno gerado fortaleça essas mesmas mulheres no combate às agressões, sutis ou não, que sofremos no dia a dia.


O filme ainda não tem previsão de estreia em circuito comercial.