‘Ele está de Volta’ seria cômico se não fosse trágico

Por Mari Frazão

A Netflix é uma ameaça inegável à programação da TV a cabo, e não é à toa: além de fornecer conteúdo exclusivo, o canal de streaming parece conhecer muito bem o seu público e as necessidades do mundo atual. Uma prova disso é o timing da nova aquisição do canal, a comédia alemã Ele está de Volta, dirigido por David Wnendt.

Na trama, baseada no livro homônimo de Timur Vermes, Adolf Hitler inexplicavelmente volta à vida e acorda em plena Berlim dos dias atuais. Completamente perdido e confuso, ele encontra uma Alemanha tomada por aparelhos eletrônicos e reality shows e governada por uma mulher. Em um mundo dominado — talvez até imbecilizado — pela existência da internet e seus facilitadores, o Führer é confundido com um imitador perfeito e torna-se uma celebridade instantânea, com direito, inclusive, a um enorme espaço na programação televisiva.

Durante as filmagens, em 2014, Wnendt e o ator Oliver Masucci, que interpreta o líder nazista, fizeram um tour pela Alemanha para infiltrar Hitler em situações cotidianas com o auxílio de câmeras escondidas. Em plena Copa do Mundo, com uma Alemanha unida pelo patriotismo, Oliver circulou por Berlim usando um uniforme igual ao do ditador. Em entrevista ao The Guardian, David explicou: “Nossa ideia era descobrir como as pessoas reagiriam a Hitler e suas ideias e perguntar se ele teria uma chance hoje em dia”. Sua conclusão? “Infelizmente, sim.”

As mais de 300 horas de gravação renderam cenas assustadoras para o filme: “Foi incrível, de repente eu era uma grande atração, como um pop star. As pessoas se ajuntavam ao meu redor. Uma mulher disse que me amava e me pediu um abraço. Uma, para meu alívio, começou a me bater”, comentou Oliver. Em cena, em pleno século XXI, vemos pessoas saudando o líder nazista e até compactuando com suas ideias. “Eu permanecia no papel o tempo inteiro, e algumas pessoas esqueciam completamente que eu era apenas um ator usando figurino e maquiagem. Elas falavam comigo profundamente a sério. Rapidamente deu pra entender como elas operavam — e que elas não aprenderam muito com a História”, concluiu Masucci.

Não podemos desprezar que o triste retrato da sociedade alemã produzido por Wnendt é um produto de comunicação e, como outros tantos, foi editado para alcançar um objetivo. Obviamente, nem todos os alemãs recepcionaram seu pesadelo da mesma forma — o filme também mostra cenas de pessoas hostilizando o ex-líder. No entanto, “não podemos ignorar o fato de que nos deparamos com um bom número de alemães prontamente dispostos a se reconciliar com ele ou que o enxergam como uma figura paterna”, ponderou o diretor. “Estamos ressaltando que o risco de uma restauração [da extrema-direita] está extremamente vivo”, pontuou.

Para o espectador, confrontado com cenas que não são inteiramente ficção, os 115 minutos de filme rendem uma sucessão de risadas constrangidas. À medida em que se aproxima do seu fim, a película torna-se cada vez mais absurda e desconfortante, até que a história toma outra dimensão. Com Hitler cara a cara com uma mulher judia e sobrevivente do Holocausto, escancara-se o fato de que não há — e nunca houve — motivo para risos.

Em um momento delicado da nossa história, quando discursos de ódio como os do deputado federal Jair Bolsonaro e do magnata americano e candidato à presidência dos Estados Unidos Donald Trump encontram coro entre a população e se proliferam pelas mídias, Ele está de Volta serve como um exercício para olharmos atenta e temerosamente o presente, para que o futuro não repita o passado.