Esquadrão Suicida: o filme da Arlequina

Por Mari Frazão

Desde que começou a lançar o material de divulgação de Esquadrão Suicida, a Warner manteve o Coringa de Jared Leto envolto em uma cortina de mistério. Enquanto as cartas de Arlequina (Margot Robbie), Pistoleiro (Will Smith), Crocodilo (Adewale Akinnuoye-Agbaje), El Diablo (Jay Hernandez) e Capitão Bumerangue (Jai Courtney) estavam sobre a mesa, a especulação da mídia e do público sobre o sádico e doentio Joker não parou de aumentar. O motivo de tanta expectativa é óbvio: todos se perguntavam se Leto estaria à altura do maior vilão de Gotham City e se aguentaria a comparação com a inesquecível interpretação de Heath Ledger em Batman: O Cavaleiro das Trevas, que lhe rendeu um Oscar póstumo.

Jared, vencedor do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante pelo drama Clube de compras Dallas, já coleciona provas suficientes de seu valor como ator. Contudo, finda a espera pelo novo Coringa, descobrimos que o personagem está longe de ser o maior destaque de Esquadrão Suicida. Embora a atuação de Leto carregue a excentricidade necessária para o papel, o vilão não passa de “escada” para sua parceira no amor e no crime, Harley Quinn, e definitivamente não tem peso suficiente para ser comparado ao seu antecessor. De qualquer forma, a Warner sabe em quem apostar no material de divulgação: apesar da importância reduzida em cena, na entrada dos cinemas o Coringa tem seu pôster separado da turma de “bad guys”.

Embora, ao contrário de O Cavaleiro das Trevas, o roteiro de Esquadrão Suicida não dê espaço para a construção de um personagem denso, a participação do arquirrival do Batman não se limita a um mero caça-níqueis: é através dos flashbacks contando a história do casal que conhecemos as psicoses e motivações de Arlequina. Protagonista das melhoras cenas vistas nos trailers e no próprio filme, Harley Quinn é a presença mais extasiante do elenco. Margot Robbie, entregue a um desatino pilhérico, se sobressai.

À altura dela está apenas a trilha sonora escolhida a dedo, que mistura freneticamente clássicos como Seven Nation Army (The White Stripes), You Don’t Own Me (Lesley Gore), Simpathy for the Devil (Rolling Stones) Bohemian Rhapsody (Queen) e The House of the Rising Sun (The Animals).

O filme, escrito e dirigido por David Ayer, é o terceiro a abraçar o universo estendido da DC Comics nos cinemas. A trama ganha força a partir dos últimos acontecimentos de Batman vs. Superman: A Origem da Justiça. Sem o auxílio do semideus de Metrópolis e com o governo dos Estados Unidos apavorado com a existência dos chamados “meta-humanos”, a agente Amanda Waller (Viola Davis) convence o Departamento de Defesa de que a única forma de combater eventuais forças sobre-humanas é um exército de indivíduos desprezíveis com quase nada a perder.

A narrativa é bem desenvolvida, apesar de alguns personagens perfeitamente dispensáveis à trama, e o bando de criminosos consegue cativar o público — até chegar o momento de enfrentar a verdadeira ameaça sobrenatural que provocou a “reunião”. Ao apresentar uma vilã aparentemente insuperável, o roteiro escorrega feio e introduz um clímax de soluções inverossímeis. Além do destaque para a péssima interpretação de Cara Delevingne (Magia), a Warner comprova sua incapacidade de solucionar um problema sem “forçar a barra”.

Desde o início de 2016, os filmes da Marvel e DC competem sistematicamente no ringue das bilheterias. Entretanto, é decepcionante que, em meio a tanta disputa pelo público, o produto final pareça chegar sempre com um gostinho de comida crua. Ao adaptar o mundo das HQs para os cinemas, as produtoras estão apostando cada vez mais nos vilões ultrapoderosos, como a Magia do Esquadrão Suicida ou En Sabah Nur em X-Men: Apocalipse, mas parecem incapazes de amarrar suas tramas de maneira satisfatória e convincente. Uma coisa é apresentar uma solução insana nas mãos de uma personagem como Jean Grey; no entanto, o diálogo decisivo entre Bruce Wayne e Clark Kent em A Origem da Justiça e o final de Esquadrão Suicida indicam que a Warner faria bem em economizar nos efeitos visuais para investir em melhores roteiristas.