Globo tenta se adaptar a novo público com “Justiça”

Por Mari Frazão

A TV paga e os canais de streaming como a Netflix vêm ceifando a audiência da TV aberta ao longo dos últimos seis anos. Segundo os dados levantados pelo Painel Nacional de Televisão (PNT), todas as emissoras sofrem com o progresso dos canais pagos desde 2010. A Globo, até então líder isolada, não se absteve da queda. Justiça, a nova minissérie dirigida por Manuela Dias (Ligações Perigosas), é um alento na programação global. Exibida em 20 capítulos, a produção é mais uma que tenta se adaptar a um novo público. Apropriando-se da linguagem cinematográfica, a densa fotografia imerge o telespectador em um Recife soturno e profundamente real.

A trama entrelaça quatro histórias independentes que se conectam a partir de um acontecimento no ano de 2009. Pautada sobre um bom argumento e com o apoio de um elenco promissor, a premissa de Justiça não é exatamente inovadora — em 2008, por exemplo, o diretor inglês Pete Travis construiu seu Ponto de Vista narrando um mesmo acontecimento a partir de diferentes ângulos. Neste contexto, a escolha da capital pernambucana como cenário cai como uma luva, especialmente para quem cresceu ouvindo a afirmação: “Recife é um ovo!”. Essa característica tão típica, misturada a detalhes como a imagem ao mesmo tempo clássica e decadente do edifício Holiday, o calçadão de Boa Viagem borrado pela noite, o vazio da estação Werneck, as rixas entre motoristas de carro e de ônibus, temperada com expressões e sotaques da terra, provoca um sentimento de pertencimento. Justiça nasceu para o Recife e pouco diverge da realidade desta cidade envolta em profundas desigualdades sociais. A minissérie mostra um retrato fiel de uma população que ainda deita no berço de Lampião e, embora a trama se derrame sobre recursos já usados, todas essas escolhas contribuem infalivelmente para a construção do roteiro.

No primeiro episódio, exibido na última segunda (22), somos confrontados pela obstinação de Elisa (Debora Bloch), que teve a filha morta na sua frente pelo noivo Vicente (Jesuíta Barbosa), traído e enciumado. Com o assassino prestes a concluir sua pena, ela sente que Isabela (Marina Ruy Barbosa) não teve a justiça que merecia e traça um plano para aniquilar a vida do ex-genro. No segundo dia, os holofotes se voltam para os conflitos entre Fátima (Adriana Esteves) e seus novos vizinhos, Kellen (Leandra Leal) e Douglas (Enrique Diaz). A terceira noite é de Rose (Jéssica Ellen), vítima de racismo e presa por porte de drogas na noite do seu aniversário de 18 anos, e da amiga Débora (Luisa Arraes), que sofreu violência sexual. Por fim, acompanhamos o atropelamento de Beatriz (Marjorie Estiano) sob a última e mais importante ótica, a do marido Maurício, interpretado por Cauã Reymond. Além de conviver com a culpa, o rapaz é preso pela prática da eutanásia. Sete anos depois, em 2016, as histórias se entrelaçam novamente e levantam diversos questionamentos entre o público.

Uma das diferenças primordiais entre as séries e minisséries e o formato das novelas tradicionais está ligada à duração: quando começo e fim são bem definidos, os cuidados com a produção e a probabilidade de amarrar todas as pontas do roteiro costumam ser bem maiores. No entanto, apesar da realização primorosa em tantos aspectos, Justiça deixa escapar alguns lapsos. O episódio de estreia, valorizado pela interpretação visceral de Debora Bloch, perdeu muito ao construir o relacionamento de Isabela e Vicente de forma rasa e atropelada. Já o segundo capítulo consegue desviar a atenção das brilhantes atuações de Adriana Esteves e Leandra Leal com falhas de continuidade e anacronismos — como uma criança chamando a mãe para tirar uma selfie, em 2009, quando os celulares com câmeras já estavam se popularizando, mas o estrangeirismo ainda não. Para um público cada vez mais exigente, certos deslizes ficam difíceis de engolir, ainda mais em uma série que dá seus primeiros passos sob uma enorme expectativa.

Felizmente, no terceiro episódio, a ser exibido nesta quinta (25) mas já liberado no Globo Play, a série acerta o passo e cria um cenário mais contundente. Esperemos que o desenrolar das histórias consiga manter este padrão e, principalmente, mais iniciativas do gênero sejam levadas adiante. Afinal, não nos faltam roteiristas, diretores e atores de talento; a teledramaturgia nacional sempre teve status de referência em qualidade. Se as emissoras investirem realmente no formato, temos todo o potencial para, muito em breve, listar também séries brasileiras entre as nossas favoritas.