O filme e livros do “menino emoção” Auggie Pullman

Por Mari Frazão

Jacob Tremblay (O Quarto de Jack) vive Auggie Pullman nos cinemas

Extraordinário, filme adaptado do best-seller homônimo de R. J. Palacio, ganhou na última quarta (24) seu primeiro trailer. Estrelado por Julia Roberts, Jacob Tremblay, Owen Wilson e com uma participação da atriz brasileira Sônia Braga, o filme conta a história de Auggie Pullman, um garoto de dez anos que só começa a frequentar o colégio na quinta série e sofre preconceito por causa de sua aparência. A estreia do longa está prevista para 23 de novembro, mas, enquanto a data não chega, vale muito a pena se aventurar pelas páginas do livro e pela sua continuação, Auggie & Eu — Três Histórias Extraordinárias. Nós já lemos os dois. Quer saber o que achamos? Confira nossa crítica:

*Crítica inicialmente publicada no Jornal do Commercio em 5 de janeiro de 2016.

R. J. Palacio está com livro novo nas prateleiras das livrarias: o necessário Auggie & Eu — Três Histórias Extraordinárias. Expansão do universo de August Pullman, protagonista do seu best-seller Extraordinário, a autora esclarece que o lançamento não se trata de uma continuação.

A obra anterior contava a história de Auggie, um garoto de dez anos que, devido a uma anomalia craniofacial congênita, teve que passar por várias cirurgias e apresenta diversas deformidades. De cara, August informa que não vai descrever sua aparência: “Não importa o que você esteja pensando, porque provavelmente é pior”. Em outro capítulo, sua irmã, Via, dá ao leitor uma ideia mais clara sobre as feições de Auggie e resume: “seus traços dão a impressão de que ele derreteu”. Narrado em primeira pessoa, primeiro pelo garoto, depois por outros personagens, o livro expõe com delicadeza o ponto de vista de uma criança “comum”, como ele se descreve, tratado como diferente pela família e pelo mundo — especialmente quando ele deixa de ser ensinado em casa pela mãe e passa a frequentar a escola.

Nas pouco mais de 300 páginas de Auggie & Eu, o leitor é imerso em três novos pontos de vista — O Capítulo de Julian, Plutão e Shingaling — todas com um ponto de convergência: August. Se em Extraordinário não há explicação para as maldades que seu colega de turma Julian pratica, agora, de forma sublime, ele tem voz. Não que haja desculpa capaz de cicatrizar as feridas provocadas pelo garoto: o bullying é sério e precisa ser combatido. No entanto, conhecer o outro lado da moeda é crucial para entender o quebra-cabeças. Por trás de todo “valentão” há também uma criança e seus medos, e essa conscientização vai além das salas de aula.

A segunda trama, Plutão, é edificada sob o olhar do melhor amigo de Auggie, Christopher, que aparece ocasionalmente no primeiro livro. De forma comovente e extrovertida, Chris traz detalhes importantes sobre a infância do amigo, revelando muito sobre as dificuldades que às vezes afastam certas amizades.

Em Shingaling, terceira e última parte da obra, Auggie parece estar fora do foco, que agora gira em torno dos dilemas de Charlotte — única menina integrante do comitê de boas-vindas a August na escola particular Beecher Prep. Como em todas as outras histórias, porém, as percepções da menina têm um papel fundamental, trazendo à tona no leitor questionamentos primordiais sobre preconceito.

No prefácio do livro, Palacio expõe suas razões para não limitar as possibilidades futuras de Auggie, Jack Will, Summer e outros personagens através de uma continuação. “Os leitores não descobrem o que acontece com Auggie Pullman no sexto ano, no ensino médio ou depois disso”, escreve. Embora milhões de admiradores esperem um desenrolar para a história que conquistou o mundo, a argumentação de R. J. é bem embasada: “Posso garantir que esse livro, a sequência de fato, jamais será escrito. (…) Um dos mais belos subprodutos de Extraordinário é a incrível fan fiction que ele gerou. Os professores estão usando o livro em sala de aula, pedindo aos alunos que entrem no personagem e escrevam seus próprios capítulos como se fossem Auggie, Summer ou Jack”.

Filme tem Julia Roberts no elenco

Extraordinário

August Pullman tem dez anos e vive em uma vitrine dos horrores: nascido com uma anomalia craniofacial, o garoto nunca passa despercebido em seus passos tímidos por Nova Iorque — onde mora com seus pais, sua irmã mais velha e sua cadelinha, Daisy –, muito menos em sua nova escola, a Beecher Prep. Apesar de ser uma criança normal, que gosta das mesmas coisas que outros de sua idade costumam gostar, como vídeo games e Star Wars, o garoto carrega o estigma das deformidades congênitas e das cicatrizes de tantas cirurgias a que já foi submetido — e sofre com a reação das pessoas. Se vê-lo é um susto, estar em seu lugar é um pesadelo. Extraordinário, primeiro livro de R. J. Palácio, é uma obra sobre amizades, gentileza, bullying, mas principalmente sobre coragem.

Enfrentar mudanças não é fácil, muito menos em uma fase tumultuada como a transição da infância para a adolescência. Se mudar de colégio e testar novas amizades já é desafiador, imaginem para alguém que nunca frequentou uma escola, para alguém que nunca será invisível. Sob a perspectiva de Auggie e de outros personagens, conhecemos seu mundo e o impacto que sua aparência causa nas pessoas. O rosto do menino não é um termômetro que mede a bondade ou maldade alheia: é uma lição sobre como não estamos habituados a lidar com o diferente, sobre como nossos pensamentos e ações limitadas podem machucar inocentes.

Por trás do rosto deformado de Auggie, há um menino engraçado e inteligente, capaz de conquistar seus colegas de classe, bem como milhares de leitores. Mas fica a reflexão: com quantos Augusts nos deparamos em nosso dia a dia, e como nos comportamos?

Veja o trailer: