Tenso, “Águas Rasas” é o melhor filme de tubarão desde o clássico de Spielberg

Por Mari Frazão

Mesmo com todos os avanços na indústria dos efeitos visuais, mais de 40 anos depois do lançamento de Tubarão, nenhum suspense conseguiu retratar a ferocidade do predador marinho com o mesmo êxito. Águas Rasas, que estreou na última quinta (25), é o primeiro a se aproximar do feito: diferente de outras produções, que buscam tanto o realismo que acabam caindo numa fenda trash, o diretor espanhol Jaume Collet-Serra está mais atento à construção de sua protagonista e ao desespero causado pela presença quase invisível do monstro marítimo. O resultado provoca uma tensão psicológica bem próxima à do filme de Spielberg, de 1975.

A linha seguida por Collet-Serra durante os primeiros 60 minutos do thriller é perturbadora — afinal, o que pode ser mais aterrorizante do que aquilo que não enxergamos? A presença do predador é sentida através da trilha sonora, dos vultos na água e da competente interpretação de Blake Lively (Gossip Girls). Essas insinuações sutis, somadas a uma belíssima fotografia e uma edição estonteante, que mistura cenas de surf filmadas de todos os ângulos, incluindo vídeos feitos com câmeras GoPro, provocam o telespectador como se não houvesse espaço entre as cadeiras e as ondas no telão.

Contudo, apesar do acerto inicial, o cineasta acaba se rendendo aos excessos e reduzindo o filme aos clichês do gênero. Ao explorar exaustivamente a imagem do tubarão e transformá-lo em uma máquina impiedosa e vingativa — desafiando, inclusive, a natureza do animal — o suspense consegue dissipar boa parte da tensão inicial. Felizmente, a apresentação da protagonista e a história em si são tão bem realizadas que evitam que o exagero e as imagens explícitas naufraguem completamente a trama.

No filme, a jovem Nancy (Blake Lively) larga a faculdade de medicina e parte em uma surf trip para lidar com o luto da perda recente da mãe. Visitando um paraíso secreto no México, ela acaba sendo atacada e ferida por um tubarão branco, mas consegue se refugiar em uma pequena ilha a poucos metros da praia — sempre rodeada pela fera marinha. Além da perda de sangue, da fome e da desidratação, a surfista enfrenta um risco ainda mais urgente: quando a maré subir, o recife que a salvou deixará de ser um refúgio. Será preciso empregar toda a sua força, inteligência e coragem para tentar voltar à terra firme.