Jerusalém: a definição mais complicada do conflito

Uma vez conversando com Renato Mota, jornalista de tecnologia do NE10, sobre uma viagem recente que ele havia feito a Israel, entramos na questão Jerusalém do conflito entre israelenses e palestinos.

Eu, que ainda estou aprendendo sobre o assunto, o questionei se não seria melhor deixar a cidade sob administração da ONU, assim como foi definido na partilha da Palestina em 1947. Ele, que tinha vivido a cidade por alguns dias, fez uma associação a qual permitiu que minha ideia caísse por terra.

Foto: Pixabay

Renato me disse mais ou menos assim: imagine que Jerusalém está para Israel assim como a Amazônia está para o Brasil e vice-versa. Na hora apenas concordei com a situação apresentada, mas depois parei pra analisar mais um pouco e sim, ela explica sucintamente a complexidade da solução pra questão.

Jerusalém é uma cidade bastante antiga, a qual em cada guerra foi sendo soterrada uma e sendo criada outra Jerusalém por cima. Talvez você não entenda as noções do sionismo, e isso eu deixo pra falar mais à fundo em outro texto, mas para judeus essa cidade é imensamente importante (não precisa nem ser judeu para saber disso, basta ter conhecimento médio sobre o que os cristãos chamam de ‘velho testamento’).

Muro das Lamentações: resquícios do que era o templo hebreu em Jerusalém. Foto: Pixabay

Para palestinos vale, além do motivo religioso, uma relação geopolítica muito importante: Jerusalém foi a capital da palestina durante o mandato britânico até 1948. Há uma relação afetiva dos dois povos com a cidade que é inegável a qualquer ser humano que minimamente tente entender o que se passa por lá.

Mesquita Al-Aqsa, local sagrado para muçulmanos, onde acredita-se que Maomé subiu aos céus. Foto: Loucos pela Gringa / Pinterest

Essa não é uma guerra sobre certo e errado, é uma guerra sobre certo e certo. Logo, o entendimento internacional, e do Brasil desde 1948, é que não cabe a mim, a você, aos Estados Unidos ou ao Brasil definir a quem pertence Jerusalém.

Essa é uma questão que deve ser definida pelos dois, de preferência através do diálogo.

Uma resolução difícil, com certeza, já que ninguém vai querer abrir mão assim tão fácil da sua Amazônia.

No nosso caso, a maior parte da floresta está conosco, mas suas fronteiras foram definidas em questões fronteiriças delicadas – a qual podemos entrar em detalhes em outro texto.

Amazônia. Foto: Paulo Santos/Amazônia Sob Pressão

Imagine que não tivesse sido assim. Ou melhor: imagine que os índios bolivianos quisessem reivindicar o território amazônico brasileiro por morarem lá há mais de 50 anos e em vez de pertencer ao Brasil, esse pedaço de terra faria parte só da Bolívia.

Em contrapartida, os índios brasileiros reivindicariam o território por terem dominado a área por mais de 500 anos, mas terem sido expulsos 100 anos antes do domínio boliviano em uma diáspora onde não houve defesa possível para as tribos brasileiras.

Claro que nesse caso existem vários pormenores e o exemplo aqui é para ser didático.

No entanto, você, brasileiro, aceitaria tranquilamente que os Estados Unidos resolvessem reconhecer essa parte da Amazônia como sendo só da Bolívia? Ou se você fosse boliviano aceitaria de bom tom que os norte-americanos reconhecessem o território como sendo brasileiro sem antes ter havido uma solução de ambos os lados?

Não seria mais prudente que o impasse se resolvesse antes entre brasileiros e bolivianos para que depois a comunidade internacional tomasse partido? Pois é, justamente isso que tem acontecido com Jerusalém.

E aí chegamos em Bolsonaro

Então, quando o presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro, diz que quem reconhece a capital de um país é o próprio país, o correto deveria ser no mínimo que Brasil mudasse as duas representações brasileiras para Jerusalém: tanto a palestina quanto a israelense.

Quando ele opta por mudar um único lado, está tomando claramente uma posição no conflito que é pró-Israel e deixando de lado a questão Palestina, tão essencial quanto a israelense. Isso tem nome: injustiça.