Vagões

A retaliação a deixava com um gosto amargo na boca, a memória trouxe mais do que aguentaria até que ela explodiu.

- Calem a boca e não matem os sonhos dos outros só porque os de vocês estão mortos há anos. Vou te falar algo que eu gostaria de ter ouvido na sua idade, não dê ouvidos a ninguém que está aqui, nem mesmo a mim. Mas entenda algumas coisas que vou te dizer, e essas são realmente importantes. Primeiro, todos que estão aqui te amam, e embora não pareça de imediato, já que o que mais fazem é apontar o dedo o tempo inteiro, ainda te amam e acreditam que estão te ajudando — mesmo eu e você sabendo que não estão. Eles não te respeitam, mas te amam e isso não é total culpa deles. Cresceram vendo sua bisa, minha avó, sendo submissa a seu biso, demonstrando sentimentos demais, até não aguentar o cheiro de bebida alcóolica e todos os insultos e expulsá-lo de casa. Eles aprenderam, desde cedo, que existem APENAS os dominantes e os dominados e a melhor opção é sempre ser dominante, jamais se rebaixar, isso é fraqueza e para os perdedores apenas. Infelizmente, nessa família, poucos são sensíveis o suficiente para entender isso, e mesmo aqueles que entendem, não fazem muito para mudar, e insisto, porque têm medo de serem visto como fracos. Não é totalmente culpa deles, um dia talvez você verá isso também. E embora todos tenham notado, ninguém realmente se preocupa em pensar a respeito, mas seu biso não se casou novamente, sequer arranjou outra namorada — que tenha transado com mil, não assumiu nenhuma. Até o último suspiro da sua bisa, que foi a primeira a ir, ele manteve um respeito e um sentimento — bem enterrado, talvez até demais, talvez cheio de orgulho másculo para demonstrar, mas manteve e provavelmente é nesse aspecto que todos aqui deveriam se apegar, mas não o fazem. Ainda porque é melhor demonstrar tudo o que sente na cama da UTI prestes a morrer, antes disso é besteira. Segundo, a vida não é uma linha reta rumo ao sucesso e ao seu sonho único e brilhante. A vida é bem mais complicada do que isso, sua bisa era romântica, sonhava com seu príncipe e se casou com alguém que pouco se importava com isso. Desta forma, a vida não é um trem com um caminho único, ela está mais para uma enorme estação de metrô com todas as pessoas esbarrando umas nas outras de maneira impetuosa e algumas vezes você se senta no vagão ao lado de um desses que você acabou de esbarrar. E vocês dois estão indo na mesma direção, e talvez até acreditam que vão seguir até o fim, mas então essa pessoa decide descer em um ponto, muito antes de ti, e fica sem entender o que aconteceu. Ou então você desce primeiro, você deixa o vagão porque sua estação chegou e é hora de pegar o outro e sentar ao lado de outra pessoa, ou pegar um vagão vazio, tanto faz. Muitas vezes você não vai querer descer, mas será necessário, e então você vê, do lado de fora, o vagão explodindo e você viva. Outras tantas você está dentro do vagão explodindo. Novamente, não faz diferença, você ainda vai descer em algum ponto, mesmo queimada, e pegar outro. E só deixará de esbarrar nas pessoas caso não se levante mais de um determinado vagão, por medo, medo porque aquele lugar está confortável demais, e o perigo mora aí, pois talvez nem a explosão te fará sair — e você pode se sentir bem, mas uma hora dói. E no meio de toda essa bagunça, seu sonho está te fazendo queimar, realmente vale a pena tanto assim? Deve desistir do seu único sonho por medo de encontrar outros tantos que poderiam te fazer sentir-se realizada tanto quanto? Ou, como acontece muito, deixá-lo de lado para pegar outro vagão, outra direção, e, quem sabe, lá na frente alcançar o que realmente queria sem necessariamente desistir de outros tantos caminhos bons e diferentes? Tudo isso conta, não há caminho certo, caminho errado, há apenas aquilo que você vai pegar e a partir dali seguir. Você é nova, é adolescente, e como toda adolescente não consegue ver isso claramente, é normal, sua vida agora é seguir apenas um sonho e todos te falam isso o tempo inteiro. Na realidade, você se divide entre aqueles que te mandam seguir o que você realmente quer e aqueles que te falam o que você tem que fazer. Os dois estão errados, seguir o que você quer pode ser tão doloroso quanto fazer o que te obrigam. Às vezes a melhor opção é a segunda, você se encontra em algo que não imaginava e ali dentro você vai atrás do que queria a princípio. Às vezes você segue na primeira, não se queima, dá certo. Ninguém absolutamente sabe de nada, eu não sei de nada, seus pais não sabem de nada, seus tios não sabem de nada e nem você. Lembra daquela pessoa que te deixou sentada no vagão? Há a possibilidade de vocês se encontrarem novamente, indo na mesma direção, em vagões distintos. Não tem como saber de nada, nunca. Terceiro, a preocupação deles é justamente nisso — eles não conseguem aceitar que não sabem de nada. Aqui dentro não há lugar para os fracos, para os perdedores e para dos dominados, e por isso eles nunca te escutam e vão jogar sua idade contra você mesma. Não importa o quão certa você esteja, se eles estiverem errados não aceitarão o erro, aprenderam que não podem errar e se rebaixar. A realidade é que nem sempre você vai ser o dominador e nem sempre você vai ser o dominado. Há variáveis eternas no meio desses dois pontos, há jogos eternos que nem sempre a melhor opção é a primeira, há vezes que perder é a melhor opção que te resta, há vezes que desistir é o que você fará de melhor para você mesma. E no final, você notará isso: você tem para onde voltar e se estiver bem consigo mesma, eles estarão orgulhosos de você. Não importa mesmo se eles te apontam o dedo agora, se te falam o tempo inteiro que o seu vagão vai explodir a qualquer momento, se estão errados ou certos — na grande maioria errados, pois só você sabe o que é realmente certo para você. Não importa se jogam pedra para você sair, não importa se no final você decide sair por tamanha insistência, não importa nada disso, nenhum caminho realmente importa se no final você estiver no mínimo consideravelmente bem. Não feliz, buscar a felicidade é besteira, mas orgulhosa de você mesma. E é isso o que eles querem para ti agora, apenas não conseguem demonstrar por ser difícil demais. Finalmente, nossa vida não dura uma hora como nos filmes, não duram 500 páginas como em um romance, não está pré-determinada. Um dia você acorda e está na metade do livro sem notar o que aconteceu antes ou como chegou ali. E no final do seu livro, os que se encontram aqui nessa sala, não estarão mais lá. Provavelmente, nem eu. Só você, com sua família — independente do que ela se constitua — e pensando que toda essa merda que você escutou hoje não fez diferença em porra nenhuma.

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