Sexo amplexo: desfocar dos genitais para descobrir um deleite supremo

TESÃO, TESÃO MEU…

Tesão. Energia que pulsa e desce entre as pernas revirando meus olhos. Pulsa e me arrepio. E não para aí. Pulsa de novo. Vai me remexendo toda até eu me dar conta que bastaria eu me tocar de leve para atingir um clímax relaxante. Mas não. Deixo esta energia me consumir e dou corda, imaginando possibilidades que me aguçam mais e mais…

Quanto nos castramos, limitados simplesmente por um modelo de realidade! Este modelo mental dita que corpo e alma, físico e espírito, matéria e mente são duas entidades separadas que se complementam. Mas e se não? E se elas forem uma entidade única só singular?

Até que a prática consciente de me construir sempre maior e melhor torne-se um hábito, as únicas ferramentas que tenho para observar o mundo me são dadas imediatamente por minha cultura e minha época. Somente quando eu consigo abrir a caixa fechada na qual nasci e cresci, eu respiro mais livre diante de um novo horizonte. Daqui, repenso como eu herdo e perpetuo pré-conceitos que não me pertencem, que me dividem, que não fazem sentido para a minha existência, para enfim conquistar um novo “pensar”.

Portanto, imaginemos que corpo e alma são uma entidade única, só por agora, enquanto percorremos estas palavras. Depois voltamos ao modelo mental anterior, se ele ainda fizer sentido. Tá comigo? Então bora.

FOCO NO SEXO GENITAL-CORPORAL

Focados no sexo genital (oral, penetracional, digital, masturbacional, não importa), não percebemos que os ouvidos e os olhos excitam tanto quanto uma lambida. Focada no orgasmo corporal, não percebo que a atração que sinto por uma ideia essencial me requebra tanto quanto uma passagem pelo meu ponto G.

Ouvir, ler, sentir um pensamento com o qual me integro plenamente tem o mesmo poder energético de uma língua que passeia pela minha nuca, de um beijo bem dado com minha boca, de minhas duas mãos que deslizam. Ouvidos, olhos e comunhão de pensamentos são algumas das portas de entrada para algo que costumamos considerar “além do corpo”.

Atenção: não estou falando de sussurros eróticos, de preliminares, de carícias apimentadas, da diferença entre ejaculação e orgasmo. Isto tudo continua sendo mecanicamente corporal, ainda que tecnicamente louvável. Estou falando de nos sensibilizarmos ao ponto de compreender o sexo em sua amplitude vital, com ou sem genitais e preliminares corporais. Homens e mulheres conservam um modelo mental preenchido por informações rasas: isto lhes confina e lhes impede um deleite supremo. Supremo em corpo-alma.

ORGASMO VISCERAL

E se ao invés de pensarmos em “pessoas”, passássemos a pensar em “indivíduos”, íntegros, indivisíveis, cujos corpos são almas e cujas almas são corpos? Não existiria mais “além do corpo”. O sexo poderia então deixar de ser mecanicamente corporal para passar a ser o amplexo da nudez emocional que me tenciona constantemente de forma ousada.

Achamos “maluco” sentir tesão (ficar molhada, ficar duro) por causa de um sopro essencial que nada tem a ver com uma trepada. Mas o problema não está na maluquice. O problema está em achar que comunhão de ideias não é sexo. Um encontro de almas, do tipo que me tira o fôlego, do tipo que responde aos meus anseios mais profundos, do tipo que abastece plenamente o meu tanque de carências, é sexo em terceiro grau! Um “palavrar” que desce na boca do meu estômago, de tão visceral, de tão imediatamente verdadeiro para minha realidade interior, é felação premiada!

O encontro copulante de duas carnes no mundo físico é um detalhe. O encontro de dois indivíduos cujas almas reverberam na carne — solitariamente ou em comunhão — é o sentido de tudo. Este poder transformacional é pouquíssimo explorado, a começar pelo fato que em geral somos personagens e não indivíduos… Todos temos personalidades, mas poucos de nós conhecem sua identidade.

A palavra “persona” (pessoa) tem origem etrusca (“phersu”) e designava na Roma antiga a máscara do ator teatral. Pergunto: o que há por trás da máscara que anima meu personagem? Anima = alma; per sonare = soar através de. Ou seja, qual alma soa através de meu corpo? Ouço um som oco ou apalpo um espírito na pele indivisível da minha identidade?

ALÉM DOS GENITAIS. O CONE. O SEXO.

Imaginemos um cone, que denominaremos sexo. A base aberta lem cima e a pontinha cá embaixo. Esta pontinha são nossos genitais. Todo o resto são as interações humanas que culminam (ou não) na pontinha cá embaixo. Tudo que não é genital, mas que envolve uma interação humana — tocar, olhar, sorrir, dialogar, ouvir, ler, cheirar, imaginar — faz parte do corpo do cone “sexo”. Estas interações respeitam códigos culturais e parâmetros sociais bem definidos, mas o cone nunca deixa de ser o mesmo cone.

Para exemplificar: para um jovem alemão recém-aterrizado no Brasil, uma brasileira vestida com blusinha de alcinha e jeans apertado, que conversa com ele sobre o seu final de semana, toda sorridente, mexendo no cabelo, bem próxima de seu hálito, encostando nas partes menos sensíveis de seu corpo, tudo isto é claramente um convite sexual. Só que não. Isto é só uma conversa à la brasileira. Veja que sexo não são genitais e o que o engloba varia de cultura para cultura.

Enfim, sexo é genital-corporal no meu modelo mental, que é perpetuado pela minha cultura. Mas se eu decidir que ele se torne amplexo, assim ele será! Saio da caixa limitante e começo a construir um novo paradigma com o qual enxergo a minha realidade e ajo no mundo.

FOCO NA NUDEZ EMOCIONAL: SEXO AMPLEXO

Vamos imaginar que minha vida sexual consegue ser o cone inteiro, pois estou presente para o fato que toda interação humana se expressa em sexualidade: o gênero sexual dá sentido para uma interação social, independente da identidade de gênero e da orientação sexual dos seres envolvidos: o “feminino” e o “masculino” são duas instituições expressivas a serem decorticadas. O problema é que somos tão apegados aos genitais (para transar, mas sobretudo para compreender o mundo), que isto chega a nos confundir, além de nos limitar…

Quando o cone inteiro vira minha experiência sexual, o deleite supremo seria o seguinte: o encontro de dois seres separados por seus corpos, cujo contato íntimo, absolutamente nu, gera uma explosão energética que lhes eleva à sua melhor versão. Como não haver tesão em algo tão visceral? Algo tão fundamentalmente essencial? O tesão existe pois esta interação responde à completude do sexo, ao corpo inteiro do cone.

O sexo mecânico genital-corporal poderia tornar a amplitude do meu Ser um mero objeto manifestado no corpo. O sexo genital-corporal poderia objetificar o meu Ser e a nossa experiência, que poderia ser de deleite supremo. Ou seja, uma mulher “gostosa” (heim?) e jovem ou um homem experiente e bem dotado (heim?) não produzem necessariamente um sexo gostoso, apesar de todo o imaginário idealizado deste modelo mental de genitais-corpo. Há, sim, gozo. Mas e daí? Um deleite supremo só seria possível entre indivíduos autoconectados que se conectam entre si além do objeto-corpo. Ao contrário, no sexo novo-amplexo, que percorre o cone todo até a sua pontinha cá embaixo, a penetração não ocorre no corpo: ocorre na alma-corpo e só existe neste nível pois há, antes de tudo, a nudez emocional. No sexo novo-amplexo, o casal (homo, hétero e todas as variantes neste ínterim) compartilha a responsabilidade pelo prazer.

A energia sexual poderosa — o cone inteiro — não sabe ser puramente mecânica, pois é visceralmente envolvente.

ALGUMAS PERGUNTAS MERECEM SER RESPONDIDAS, UMA A UMA:

  1. Pra quê continuar a perpetuar a ideia que sexo genital-corporal é todo o sexo que há?
  2. Do que temos medo?
  3. Quais modelos mentais habitam o nosso inconsciente e alimentam nossos pré-conceitos?
  4. Estou pronto para me conectar intensamente comigo mesmo e me conectar nesta mesma ousadia com alguém?

1 — Pra quê continuar a perpetuar a ideia que sexo genital-corporal é todo o sexo que há? (Uma breve volta histórica)

“Não vemos o mundo como ele é, mas como nós somos.” (James Hunter em "O Monge e o Executivo") O mundo exterior entra em nossa consciência pelos filtros de nossos paradigmas, que nem sempre são adequados.

Perpetuamos na era pós-digital uma dicotomia teorizada por filósofos que viveram alguns séculos antes de Cristo; dicotomia da qual a igreja se apoderou para criar o seu império. Tudo começou por Platão (400 A.C), que inventou o mito da alma gêmea que até hoje alimenta nosso pobre imaginário… Ninguém estudou Platão, mas todo mundo conhece o amor platônico, entendido como o ideal perfeito que não deságua no físico. Ninguém estudou Freud, mas todo mundo conhece o peso do inconsciente psicossomático. Isto são indicações de modelos mentais, ou seja dos paradigmas que guiam nossos pensamentos e, logo, nossas ações.

Desde Platão, viemos exaltando a alma e menosprezando o corpo. Mas esta noção encheu tanto o nosso saco que a viramos pelo avesso no século XX. Hoje, no século XXI, vivemos o cúmulo do avesso: passamos a menosprezar a alma e a exaltar o corpo. Nosso século nega a alma e reduz o espírito a um reflexo de funções corporais. Talvez chegou a hora de conciliar estas duas noções extremas: conciliar os indivíduos na alma-corpo, inteiros em uma estrutura única só singular.

Esta reconciliação é necessária e não há instituição que represente mais as mudanças do indivíduo do que o casamento. Historicamente, o casamento passou de sacramento religioso a contrato interpessoal, a convênio familiar por territórios, a obrigação de um dote, a separação de bens, a estado indissolúvel para toda a vida até chegar à presença massiva do divórcio, nos tempos atuais. Octavio Paz me ensinou em La Llama Doble que são 3 as mudanças nucleares que exigem a ressignificação de nossas interações:

  • De ordem social: independência financeira da mulher pelo seu trabalho autônomo
  • De ordem técnica: métodos anticoncepcionais
  • De ordem de valores: mudança da posição do corpo, que deixou de ser a metade inferior, meramente animal do Ser.

Ou seja, talvez chegou a hora de ajustarmos nossas lentes ao enxergarmos as interações humanas. Modelos mentais determinam o pensamento. O pensamento sobre o mundo determina o agir sobre o mundo. O agir sobre o mundo reforça os modelos mentais.

2 — Do que temos medo?

Temos medo de nos machucar e medo de machucar o outro. O medo tem uma função pedagógica fundamental, pois cria a noção de limite e de respeito ao outro. O paralelo extremo é a zona de conforto: a vivência em prudência, a falta de ousadia que gera o tédio. A presença do medo é o que faz o jogo da vida ser interessante: só tememos o que desconhecemos, só desconhecemos o que precisa ser explorado. Quando exploramos, evoluímos. Uma vida apaixonante gera muito medo. Mas uma pessoa ousada, ao mesmo tempo que sente medo e compreende a noção de limite, reúne a coragem necessária para enfrentá-lo responsavelmente.

Pensar no sexo como cone é amedrontador. Temos medo do nosso corpo tanto quanto temos medo do que está por trás de nossos personagens. Conquistar a própria sexualidade demanda a mesma energia que a conquista de sua identidade. Não sabemos para onde poderíamos ser levados na imaginação de possibilidades, sobretudo se somos casados e não queremos ser desleais e infiéis com nossos amores… Fica a ressalva: quem escuta a sua identidade (por baixo de suas máscaras) age sempre estrategicamente, de acordo com o sentido de sua existência. Não há “Carpe Diem”. Não há emoção que não seja refletida pela racionalidade. Não há racionalização que não se paute no sentir pleno de todas as emoções.

Atenção: não estou propondo a libertinagem, pois a libertinagem perpetua o menosprezo da alma e a exaltação do corpo. Voltaríamos à estaca zero, às nossas pulsões animalescas, à divisão entre alma e corpo. Quem dera uma trepadinha fosse capaz de alimentar nossos anseios mais profundos e irrigar o nosso deserto. Pelo contrário: as trepadinhas ocasionais me ajudam a me esconder de meus buracos, enfiando-me em outros alheios.

3 — Quais modelos mentais habitam o nosso inconsciente e alimentam nossos pré-conceitos?

Nossa educação para a vida começa quando nascemos. Crianças não têm medo de sua sexualidade. Brincam com seus genitais e se masturbam abertamente. Sentir prazer corporal não é um mal abominável para a criança. Pelo contrário. Mas nós, os adultos do Ocidente, geralmente suprimimos este encontro corporal da criança com ela mesma quando ela atinge entre 5 e 11 anos. Sentir prazer corporal a partir de uma certa idade torna-se inaceitável. Nossa santa ignorância não sabe nem mesmo o porquê, e nem quer se questionar sobre isto, mas sabe que é inaceitável! Começa o jogo do esconde-esconde. E sobretudo para as meninas, cuja sexualidade precisa abranger o recato, a “pureza” e a submissão (sim, até hoje, ladies and gentlemen!). Isto entra na mesma categoria do menino que chora: só é aceitável que ele chore até uma certa idade. Depois ele precisa “virar homem”.

E se adicionarmos a religião à este bolo, a receita fica ainda mais complexa. Enfim, crescemos e chegamos aqui, perpetuando — em nós e nos nossos filhos — normas que acreditamos ser nossas, quando na verdade nos dividem integralmente. O problema é que tudo que é suprimido continua existindo, só que infiltrado por dentro, de forma sublimada, aguardando as brechinhas que abram espaço para explosões.

O mais essencial deste ponto é o seguinte: Existem normas dentro de mim que não conheço, e essas normas me deixam dividido sem que eu saiba. Me culpo sem saber o porquê. Uma norma inconsciente só pode ser alterada quando ela é trazida para a consciência.” (Paulo Gaudencio em "Minhas Razões, Tuas Razões")

O meu pacote de normas e expectativas idealizadas de mim mesmo existe a nível inconsciente, e foi denominado superego. É o policial que censura nosso impulsos. O grande segredo é trabalhar assertivamente o ego idealizado — nossa censura sem senso — e não os impulsos que nos são naturais e que não são nem negativos nem positivos; simplesmente são. E fazer isto tudo sem destruir nossa consciência moral e respeitando os códigos que nos permitem viver em sociedade.

4 — Estou pronto para me conectar intensamente comigo mesmo e me conectar nesta mesma ousadia com alguém?

Uma relação humana inteira seria então amplamente sexual, pois perpassa o cone inteiro, ainda que decida não envolver o contato entre genitais. Para estabelecer uma conexão neste nível com alguém é primeiro necessário que eu entre em contato pleno comigo mesmo. Eu preciso deixar de ser um personagem mascarado para ser exatamente aquele indivíduo que anima as máscaras, por trás das cortinas, em cima do medo, por fora da carapaça, honesto na ousadia, emocionalmente nu.

A boa notícia é que tornar-me inteiro só depende de mim. Só demanda de mim coragem para enfrentar meus medos e para reavaliar minhas normas inconscientes e ressignificar minha existência. Coragem para me conhecer, para em seguida me criar na direção que melhor me responda.

Lançar-me na direção de minha plenitude não é confortável, inicialmente. Lançar-me nu na direção de outra pessoa é uma ousadia desconhecida. Mas o desconforto de perpetuar o que me divide e o que não me responde, só conserva minha prisão domiciliar. Quero mesmo isto? A alternativa do deleite supremo me parece ser mais interessante…

Pronto. Nosso pacto termina aqui. Agora você pode voltar ao seu modelo mental anterior, se ele ainda fizer sentido.

Escrito em 5 de junho de 2016, por Maria Cecília Rodrigues Campos