Tempos sombrios. (ou: O capitão saiu para o almoço e os ratos tomaram conta do navio)

Por Rafael Alves

A esta altura dos acontecimentos, poucos ou mesmo ninguém acredita que o impeachment recuará. A saída da presidente Dilma já é dada como certa, infelizmente. É o caso de quem morre na contramão atrapalhando o público, depois de atravessar o governo com um passo bêbado.

Anos atrás enxerguei os setores da sociedade se articulando para dar o golpe. Os mesmos setores sociais que articularam e patrocinaram o golpe em 1964 repetiram o feito em 2016. De quais setores falo? Os de sempre: mídia, FIESP, OAB, e alguns dos empresários mais ricos do país.

Errei, entretanto, ao não achar que a mão que puxa o gatilho viria do PMDB, mas sim pelo PSDB. Superestimei os tucanos e subestimei essa coisa que o PMDB virou. Ainda assim, em 2015, Ciro Gomes denunciou Michel Temer como o Capitão do Golpe. Na época havia incrédulos a dizer ser impossível que um golpe se repetisse. A realidade não tolera os incrédulos, os esmaga com sua patrola e os atropela sem pena.

O golpe é um fato dado e consumado.

E o futuro será complicado; tempos sombrios nos aguardam. Temer assumirá primeiro interinamente, depois como presidente de fato. Temer que já foi tetracampeão em delação da Lava Jato. Aliás, Lava Jato que sumiu dos jornais, noticiários, rádios, revistas e sites. Lava Jato que Sérgio Moro assume querer encerrar ao fim desse ano, pois segundo suas palavras, o povo brasileiro se cansou dela. Curiosamente a Lava Jato acaba após tentar inviabilizar a candidatura de Lula para 2018, e produzir o cenário político favorável ao impeachment de Dilma.

Dilma que cai e deixa a cadeira a Temer, o que nos leva ao começo do parágrafo anterior e também ao início deste, pois quando cai Dilma, Temer assume, e Eduardo Cunha seu companheiro de chapa, de partido e de golpe, assumirá então como vice-presidente. O mesmo Eduardo Cunha que barrou toda tentativa de reforma política que nasceu nas ruas em 2013. O mesmo Cunha delatado e investigado em todo grande esquema de corrupção desde os anos 80. Cunha que recebeu 900 mil reais das teles de internet e agora, portanto, se posiciona a favor do limite de franquia para navegação de internet. Cunha, que será o responsável por anunciar o Advogado Geral da União, quando assumir como vice. Para quem não sabe, o Advogado Geral da União é o responsável pelo andamento ou não das investigações dos casos de corrupção no país.

Uma piada, mas uma piada real e triste.

O mundo real, repito meu amigo, não tolera ingenuidade. A verdade, é que Dilma cai sim, Temer assume, Cunha também, e no mês seguinte, eu desafio qualquer um a encontrar uma capa de jornal ou revista falando sobre corrupção. Magicamente o país estará limpo dela, e a corrupção sairá das manchetes, reforçando a tese de que o PT e somente o PT é corrupto.

A população, não mais bombardeada diariamente pelo Jornal Nacional com reportagens de vinte minutos falando sobre corrupção, acreditará que o país não é mais tão corrupto e dormirá satisfeita com suas panelas e camisetas da seleção. Eduardo Cunha será o novo Maluf, perdoado pelo povo de todos os seus crimes, pois ele roubou sim, mas também tirou o PT do poder. É o novo rouba, mas faz. Você pode ser estuprador, traficante, sociopata, assassino, mas está absolvido se for antipetista.

E continua, não para ai.

Gente como Arnaldo Jabor ou Rodrigo Constantino, ex-colunistas do jornal O Globo, que se posicionavam contra tudo que o governo petista sugeria, agora fará o contrário. Jabor por exemplo, que até semana passada era contra a volta da CPMF pois era o PT quem a queria de volta, essa semana, em artigo publicado na CBN já mudou de opinião. Constantino em seu blog pessoal acabou assumindo numa crise de sinceridade que a mídia se posiciona favorável ao impeachment de Dilma porque isso será bom para os negócios. Como? O presidente da editora Abril, a mesma que publica a Veja, comemorava com seus funcionários a queda de Dilma no Congresso, porque agora as verbas públicas que o governo do PT não renovou, voltarão no governo Temer.

Daqui pra frente tempos sombrios aparecem no horizonte. Não quero soar alarmista, mas é o que vejo.

Já disse e repito, programas sociais como Minha Casa Minha Vida, Bolsa Família, Fies, Prouni, Pronatec, Brasil sem Miséria, Mais Médicos, Saúde da Família, Ciências sem Fronteiras, entre outros, vão receber cada dia menos verba, e eventualmente vão deixar de existir. Tais medidas serão aprovadas pela mídia e também pelo povo, por consequência. Salário mínimo deixará de sofrer reajuste. O PSDB, chamado para compor o governo Temer, deixou claro durante a campanha para presidente que o salário mínimo brasileiro de incríveis R$ 880,00 é alto demais. Sim, você leu certo, alto demais.

A FIESP, órgão responsável pelos patos amarelos gigantes, e a favor do impeachment em 2016 e do golpe militar em 64, também é a favor da terceirização dos contratos de trabalho, o que na prática reduz o salário do trabalhador, como já ficou comprovado em todos os países onde a ideia foi colocada em prática. Um governo Temer, conseguido com o apoio da FIESP, atenderá essa demanda antiga da entidade, não duvide. Mais uma vez, jornais e revistas o farão acreditar que esta é uma boa medida.

Uma medida para tempos de crise é o que dirão.

Para o futuro, todo corte amargo será justificado dizendo: “é culpa do PT, as contas públicas estão um caos”. Em 2018, nas novas eleições presidenciais, teremos provavelmente uma disputa apertada entre um candidato do PSDB e um do PMDB, isso se ambos não se aliarem. Do contrário, teremos uma eleição entre PMDB/PSDB e Marina.

E então o golpe terá sido concluído. Não bastará derrubar Dilma. Será preciso que todo e qualquer partido minimamente alinhado a esquerda desapareça.

Ao fim o povo brasileiro estará orgulhoso por ter derrubado um presidente, acreditando ter limpado o país da corrupção, e quando vier a fatura da conta por brincar com a Democracia, esta velha puta, já não teremos condições de pagar.