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a gente meio que é sozinho sempre
nossas únicas companhias reais
são as formigas que sobem pelos pés no playground
os vazamentos de cor vermelha que saem da alma
os olhos estranhos no espelho
e os vermes que nos acompanham no leito de morte
e quem dera ter a sorte
de sentir que tudo que é absoluto e existe
faz parte do mesmo corpo lento e triste
o qual carrego pelos caminhos que guiaram meus pais e amigos
eu sempre vou viver no vazio do lago a noite
pelo qual sempre atravessávamos de volta para casa
ao som de músicas antigas e sentimentos de frustração
e eu queria ser a chuva que lava o mundo de suas mais profundas impurezas
do mesmo jeito que tuas lágrimas são para a imundície de minha alma
e do verbo ser, eu sou
e justo da existência do eu, a solidão reside e pulsa
gritando que devo aceitar sua existência fugaz
e parar de me debater tanto enquanto ela tenta dormir
a gente é sozinho sempre
mas a gente se liga externamente uns aos outros
usando as palavras certas e os fios errados
saudades e o choque de sempre voltar
pra mesma casa com o mesmo cheiro de decepção e leite materno
o desespero dos sentimentos que me sufocam
me lembram as ruas movimentadas da cidade que projetamos
e eu nunca sei o que dizer nesses momentos esquisitos de despedida
porque nunca sei exatamente o que sinto
quando toco sua mão gelada e a coloco no meu bolso
e quando a tiro de lá
sua mão e a minha são apenas uma
e eu não tenho certeza
se debaixo da minha pele vive mais alguém além de mim
e se ela também tem medo de escuro como eu
medo do que as árvores querem expressar quando dançam
a medida que corro pela rua
a gente é sempre sozinho?
o verbo ser é verdadeiro? eu realmente sou?
tua mão acariciando minha bochecha
deveria me fazer sentir completo mesmo
ou isso é só efeito colateral?
não importa a resposta apenas me acorde.
— Liszt
