Afogamento

Baleias, por Maria Isabel Estrela

bem, minha hora é agora
novamente em minha alma 
me vejo submerso
e me vendo com aqueles
fantasmas de outrora
percebo que o mundo 
é um excesso;

o amor é coisa única
(que desconheço):
não basta! me restaura;
que em tranquilidade lírica
que era grande de começo
vi que afeto não é grande coisa
quando não se está entregue;
nem a solidão que tanto açoita
é pior que resiliência breve.

ouves o canto das baleias
que lá reside o mar
tal como nas aldeias
penosas e cinzentas;
lá a poesia vive no penar
das incertezas virulentas.

ouves, que é impossível ignorar
quando as imagens ao teu entorno
se diluem com a queda a te puxar;
e quando as coisas lá em cima
perdem seu contorno
vês que essa triste melodia
a te envolver num coro
será tua única companhia.

e quando essas baleias
forem como a ti
encares o mundo a te cercar
que não há sereias
neste profundo jardim
a que chamarás de lar;
quando veres que tudo 
se pôs a desbotar
não vais querer subir
não vais querer voar…

em um sonho luminar
as tuas pupilas trêmulas
procuram meus olhos
firmemente a te fitar;
mas desperto, sempre volto
e as baleias têm de novo o seu lugar!
não há mais escapatória
ao envolver-se em suas vísceras.

conte uma história
de como teus pais lutaram
para fugir da tempestade
aos peixes que não ouviram
sequer teu grito cheio de ambiguidade;
da tua pele, deixe que isto irrompa 
que no mar das memórias minhas
não há valia ou pompa
a alimentar-te — essa andorinha.

padecendo das piores formas
neste mar imenso e insone
vejo teu fôlego se esvair em bolhas
deixe ir! não tarda e ele some!
a culpa é um líquido negro
a preencher teu corpo
como a persistência d’um morcego
na elegância de um morto;
deixe ir! não tarda e ela morre!
não tens mais sinal, sequer
do caminho que percorres?
ah, deixe cair, pra que toda essa lida?
nesta vida fundada em maldizer
não há lugar em que sejas bem-vinda.

os dias se passam
com pressa somam
numa torrente abstrata
de espumas vermelhas; 
em cada um deles se retrata
uma de minhas centelhas
a cair em tuas águas frias;
não, me deixe ficar, Senhora
no fundo, não quero que acabe
o desconforto dos meus dias! 
não, ainda não é hora.
ainda não…

-VFd.

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