Carta de despedida na bolsa dele

costumávamos guardar nossa juventude e vivacidade
debaixo do escorregador do parquinho
perto das garrafas vazias e do esperma
nossa alma era tão suja e ainda cheia de felicidade
contrastando a mediocridade da nossa aparência externa
minha cabeça balança
entre as memórias que odeio da infância
e o dia que você me disse na praça
que eu tinha sorte de ter nascido tão bonito
mesmo sabendo que meu corpo não passa de uma carcaça oca
levei como elogio por amar você
e as merdas que saem da sua boca
queria esquecer os dias que visitamos o cemitério
chorando pelas lembranças de pessoas que não conhecíamos
deixando flores na lápide de crianças que nunca fomos
queria esquecer os dias que pedimos pra deus nenhum
que nossa alma fosse purificada
e que ficássemos juntos pra sempre
mas se nem nossa pele áspera sobrevive ao corte da faca
não existe deus ou destino que nos guarde misericórdia
sinto muito pelo dia que te fiz chorar
porque te disse que o vazio estava me engolindo
e meu corpo já tinha desistido
e só faltava você
sinto tanto por querer morrer
pode desligar agora o telefone
a sinfonia me hipnotiza como um rato sujo
direto pra boca de seu pior predador
pode soltar minha mão agora
porque o inferno pelo qual vou passar
é muito mais confortável que a cama que durmo
e os seios que me dão de mamar
repouso sozinho em cima do que restou da minha sanidade
o riso dos meus amigos é o que me salva da morte
dentro da minha cabeça escuto pra sempre
o diálogo entre meu azar e minha sorte
tic tac tic tac…
— Liszt
