LOGORREIA

Primeiramente: embora a maioria dos textos de cunho opinativo ou reflexivo contenham parcelas ou a integridade do pensamento do autor quanto ao que o cerca, o discurso de confissão o envolve exclusivamente em suas particularidades.

Este é um texto cujo objetivo é enxaguar, centrifugar, secar e, enfim — depois de cerca de duas horas — estender minha alma sobre a clarabóia do banheiro de casa, junto aos panos de chão.

As frases do texto são longas, geralmente carregando um comentário entre vírgulas ou hifens, lembrando o leitor da respiração através do uso das vírgulas, o levando a crer que é necessário certo esforço para que, no meio de ideias correndo a frente dele, algo faça sentido, algo possa lembrá-lo do porquê reteve sua atenção até aqui. Por nada. E se esse texto algum dia for lido em voz alta, terá de provar-se um trava-línguas, uma vez que a metalinguagem dos parágrafos há de casar-se com a harmonia do texto ao seu título. Se ler em voz alta, nos faça o favor de cuspir cada caractere registrado. Cada palavra escrita é um escarro.

Sobre o título: “Logorreia” é uma doença. Lembra diarreia, gonorreia, ureia, pau e pus. A sintomologia descreve: inchaço, coceira, formação de calos sobre a cabeça, suor frio, pesadelos constantes com paranoia persecutória (a voz retumbante do seu chefe auferindo os seus atos e lhe informando que, da soma deles, só se tira que você é um imbecil), insônia, humor inconstante, ressaca e alucinação.

Envolve o (f)ato da impolidez linguística. É, e sempre será, falar demais, e não dizer nada. É dizer, quando dizer, que, unicamente, quer-se falar pra que se ponha pra fora:

Diarreia, gonorreia, ureia, pau e pus.

Não é um talento, porque há quem diga que talento é aquilo que se pratica com gosto e que se aprende rápido. Não é “falar bem”, por escolher, dentro um vocabulário razoavelmente extenso, palavras de pouco ou nenhum uso da língua portuguesa em ordem de justificar a artisticidade de seu trabalho ou colocação — é uma doença, boceta.

É anunciar um plano e não o cumprir ou sequer planejar as etapas de sua execução; é bater com uma ideia na mesa, já inscrita em um papel, e dela retirar uma expectativa de duração semanal; é dar o melhor de si entre quarta e quinta-feira; é matar-se, hora após hora em que avança a noite, à frente da tela de um gelado monitor.

Eu vou procurar ser um pouco mais claro:

Toda vez que paro de falar me apercebo da bagunça em que me cerco. O alívio do vômito, após algumas horas de excesso com amigos, é logo acompanhada pela brutalidade do que o cerca: os pequenos grãos de arroz misturados aos cubos de carne e batata do ensopado que sua mãe havia feito no almoço. Enquanto estivermos no excesso, o mundo é alegria, é prazer, é proximidade com o que lhe interessa, cativa e emociona, é afago, carinho e pertencimento, é amor.

Depois de abrir a boca e vomitar — isso acontece quando fico sozinho e em silêncio — eu me sinto um prato sujo, de preferência aqueles em que o bolor se acumulou.

Não é autodepreciação: é constatação de uma falha de caráter, incompatível com a de um comunicador, mas no mínimo sincera para aquele que, mesmo que apenas em vocação (porque estes textos me chamam), tem alma de artista.

Agora que a roupa acabou de bater, e enxergo a ainda encardida alma de molho, olho pra cima. Lembrei da televisão ligada no canal evangélico.

“As bênçãos virão até ti e lhe alcançarão”. Ouço o vento a cantar. Abro a claraboia. Pronto, estendi-a.

Tem muita sujeira aqui dentro. Tem muita sujeira lá fora.

E tudo isso foi pra falar que eu falo demais. E nada melhor que terminar o texto de uma forma bem merda.

Logo,

Réu.

Y.