sagrada ordem

eu não lembro quando as praças
se tornaram grandes cinzeiros
nem o exato momento em que
os velhos que alimentavam os pombos
passaram a andar calados e aflitos.

nada se dispõe. nada se dispõe.

medo? só dos outros. tudo que era
lenda urbana, hoje é efemeridade.
ficou o real. basta que seja real
preciso dele como forma de escapismo.

um dia me quis levar para longe.
hoje, eu sou medíocre.

meus pais sempre foram bons comigo.
sempre me levaram para a escola
me deram água e comida.

meu pai protegeu minha masculinidade
me impedindo de dançar.

minha mãe, quando queria me insultar
me chamava pelo seu nome.

voltando às praças
não lembro quando elas se tornaram
paraísos herméticos em terra.
não lembro quando elas eram
praças. apenas praças.

hoje ando cabisbaixo
e entrego meus pertences
dia após dia.

mas, que seja. nada tem valor.
nada mais vale meu olhar atento.
nem de ninguém.

olhar para frente…
que esporte arcaico!