DIFERENTES NARRATIVAS NO “RELACIONAR-SER” EU DIGO SIM A NÃO-MONOGAMIA

Há um bom tempo venho refletindo sobre a formato das relações em que quero viver, investir energia. E encontrei nas palavrações de uma guerreira e companheira de jornada, uma leitura de mundo que inspirou meus sentires e pensares em relação a esse tema que está pulsando aqui dentro.
Como na nossa cultura a monogamia é a regra, sobre a qual muitas pessoas nunca pararam para refletir, há muita gente que tem ideias extremamente rasas e/ou distorcidas sobre as razões que podem fundamentar a escolha pela não-monogamia — e sobre o que cabe dentro dela.
Algumas razões me provocam e desacomodam a investir e quem sabe na energia das deusas experienciar esse formato no “Relacionar-Ser”:
Há séculos, mulheres são tratadas como propriedades / objetos de homens. Há séculos, mulheres são assassinadas como propriedades / objetos de homens.
Isso está tão enraizado no inconsciente coletivo que foi romantizado: A mulher que comporta-se bem como uma propriedade exclusiva recebe muitos elogios. Já a mulher que foge desse comportamento recebe muitas críticas negativas — no mínimo. Até o século XX, por exemplo, mulheres foram internadas em hospícios porque não tinham interesse em / se recusavam a casar.
Dou muita importância a seguir como um indivíduo livre — e ainda que eu passe um período sentindo vontade de me relacionar apenas com uma pessoa, é fundamental que ela saiba que continuarei sendo no mínimo tão livre quanto eu era antes de conhecê-la. (Uso aqui “ser livre” apenas como oposição de “ser propriedade” e lembrando que liberdade não exclui sensibilidade, consideração, respeito, comunicação, cuidado, amor…)
“O seu amor/ Ame-o e deixe-o/ Livre para amar” — essa música dos “Doces Bárbaros” foi divisora de águas para mim. Passei a refletir sobre qual era o problema se alguém com o qual me relacionasse amasse outra pessoa e expressasse esse amor fisicamente. E basicamente percebi que eu tinha medo de perder, medo de ter menos. Percebi que eu tinha apego. Então concluí que preferia uma relação que não fosse baseada nisso; que gostaria de praticar ficar feliz pela felicidade do outro, perto ou longe de mim; deduzi que essa prática sintonizava com o mundo em que eu acredito.
Quando alguém me diz “estou namorando”, já imagino uma certa rotina com um conjunto de regras e expectativas específicas. Concluí que prefiro construir / criar uma relação, ao invés de reproduzir o padrão das comédias românticas. Cada pessoa tem suas preferências e é possível chegar a um combinado, ao invés de precisar se adequar a um modelo. O eu, o tu, e o nós são sujeitos distintos. É preciso e precioso alteridade no relacionar-ser.
Diversos tipos de relação cabem no âmbito da não-monogamia. Você pode passar um período sentindo vontade de se relacionar com apenas uma pessoa e continuar não-monogâmico/a.
Citando Alex Castro, “Relacionamentos não-monogâmicos são quaisquer relacionamentos sexuais, românticos, amorosos ou afetivos consensuais, entre duas ou mais pessoas de quaisquer sexos e gêneros, que vão além da normatividade monogâmica da nossa sociedade e onde não exista a restrição aos envolvimentos com outras pessoas de fora do relacionamento.”
Sigo no amor, amando, amém.
