Aquela coisa toda

Com mais um tucano não empolgando o eleitor brasileiro, imprensa e setores da elite econômica do país começam a cogitar um plano B para 2018

Marcelo Idiarte
Sep 5, 2018 · 4 min read
Jair Bolsonaro, Paulo Guedes, João Roberto Marinho, Geraldo Alckmin

Notícia desta terça-feira (4) nos portais brasileiros:

Entenderam como é a coisa?

Alckmin sempre foi o candidato preferido da imprensa, banqueiros, demais empresários e elite em geral.

PSDB, sabe como é.

Lua de mel antiga, que vem desde os tempos de FHC.

Só que depois da (péssima) experiência com o Príncipe da Sorbonne nenhum outro tucano empolgou o povo.

Pela evidente razão de que o PSDB nunca governa para o povo.

Mesmo recebendo o dito “legado FHC” (que só imprensa e elite exaltam), Serra perdeu para o PT em 2002.

Alckmin perdeu para o PT em 2006.

Serra perdeu de novo para o PT em 2010. Com bolinha de papel e tudo.

Aécio também perdeu para o PT em 2014. Mesmo tendo se aproveitado de um movimento estudantil contra o aumento das passagens de ônibus, que a imprensa sequestrou e transformou em protestos contra o governo federal.

E agora Alckmin, nova-velha esperança da elite, não tem a menor chance em 2018.

Mesmo com Lula sendo excluído do jogo político e com o PT sendo amordaçado de todas as formas por uma Justiça a serviço da elite.

O povo não quer nunca mais PSDB na presidência da República.

Mas os banqueiros queriam.

Juízes, idem.

Imprensa, também.

Empresas estrangeiras, interessadas em saquear as riquezas naturais do país, como o petróleo, mais ainda.

Faltou apenas combinar com o povo. De novo.

Daí agora o que acontece, com Alckmin, Meirelles e Amoêdo (primeira, segunda e terceira vias da imprensa e banqueiros) não empolgando nem fãs de stand-up?

Surge Bolsonaro no horizonte.

Como diz um amigo meu, Bolsonaro foi o efeito colateral do golpe.

Imprensa e banqueiros não queriam esse psicopata: queriam apenas tirar o PT e pavimentar o retorno do PSDB.

Bolsonaro, tremendo azarão que ninguém de sã consciência cogitaria para conduzir um condomínio residencial, quanto mais um país, surgiu no vácuo dos canhões da imprensa apontados para o PT.

Quando alguns bots e dementes começaram a dizer em portais e redes sociais que Bolsonaro era a solução, ninguém deu bola.

Afinal eram só bots e dementes mesmo.

Mas o suposto vazio ideológico resultante de uma “decepção com o PT” e um clima de ódio irracional à Esquerda foram ganhando corpo.

Providencialmente alimentados pela imprensa através de seus articulistas irresponsáveis.

A partir da reeleição de Dilma eclodiram mais bots e mais dementes.

Em 2015 e 2016, com o golpe branco travestido de impeachment, a coisa começou a fugir do controle.

Agora já não são apenas bots e dementes: já há pessoas alfabetizadas sendo seduzidas pelo discurso fascista de Jair Bolsonaro.

A piada ficou séria.

Não subestimem a estupidez humana.

Se a imprensa anuncia que banqueiros estão começando a aceitar Bolsonaro é porque o recado vem dos próprios banqueiros.

Todo editor de economia de grande jornal tem linha direta com eles.

Uma mão lava a outra.

Também nesta terça-feira a Veja noticiou um encontro inusitado no Rio de Janeiro, que teria ocorrido na segunda-feira (3).

Paulo Guedes, economista de Bolsonaro, alinhavou uma reunião entre Bolsonaro e João Roberto Marinho, um dos herdeiros da Globo.

O que teriam conversado durante 1 hora e meia?

Nem os ateus vão saber.

Mas não é praxe da famiglia Marinho chamar alguém em seus domínios para ameaçar — isso eles fazem através de seus onipresentes veículos mesmo.

Dá até medo imaginar que tipo de acordo fizeram, já que Bolsonaro também não foi lá somente para tomar chá com bolinhos com um dos vice-presidentes da Globo.

Aquela coisa toda se desenhando.

A imprensa em sua derradeira encruzilhada.

O que fazer, faltando 1 mês para as eleições, considerando que:

a) Lula continua à frente nas pesquisas, mesmo condenado, preso e impedido de concorrer.

b) Haddad vai acabar herdando boa parte dos votos de Lula quando for oficialmente declarado candidato do PT.

c) Alckmin não decola e já é carta fora do baralho.

d) Meirelles e Amoêdo, coitados, atingem só 1% da população brasileira.

e) Ciro e Marina flutuam entre a Esquerda e a Direita, sem definição clara por uma coisa ou por outra.

f) Boulos é a Esquerda radical que a elite teme.

g) Bolsonaro, efeito colateral do golpe, é um monstro que escapou do controle da imprensa.

A postura mais sensata em um cenário tão delicado seria não interferir em nada, deixando o próprio povo escolher.

Para não se comprometer.

Para não ser acusado depois de ter colaborado para colocar milicos no poder de novo, como Globo e demais grandes veículos já fizeram em 1964.

Mas quem disse que imprensa, banqueiros e elite têm algum tipo de sensatez?

Seja lá o que decidirem, junto eles vão convencer e arrastar a classe média e os inocentes úteis.

E nós vamos ter que fazer das tripas o coração para impedir o horror.

Aquela coisa toda de sempre.

Só que agora não é apenas o caso de um representante da elite no trono: é a iminência de um psicopata dirigir o país.

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