Farol


Eu a vi, instantaneamente toda minha solidão tremeu dentro de mim, correndo mais rápido que meus pés para atravessar a avenida, correndo para ela, fugindo de mim. De alguma forma ao avistar seu cabelo cor de rosa, ela me fez aliviar a tensão da vida. Deixou a vida rosa, quis me perder tão delicadamente em cada fio para só avistar suas cores. Ela segurava um livro, parava e olhava para o lado errado, com sua saia azul na altura do joelho e uma blusa curta branca, era como um céu, quando entardece e fica uma mistura de branco, azul e rosa.

Ela me avistou, ai! Minha solidão correu, levando todo meu coração junto. Aquele olhar, olhar que me alcançou e tocou e tão longe eu estava, do outro lado da avenida caótica. Tudo parou, o sinal, os carros, minha dor, o calor que eu sentia. Eu a senti, de longe, de tão longe, de dentro de mim, de onde nem sei que estou em um universo meu.

Quis voltar, quis fugir, me senti refém de quem era apenas palavras há cinco minutos atrás. Podia chamar o uber de novo, pegar esse ônibus que tá aqui parado, até um táxi eu pago. Ela me tirou de mim, eu agora não sei onde estou. Mas eu segui, atravessei a rua com um passo pesado de medo, que medo essa criatura tão pequena me colocou ao me esperar com aquele olhar de farol.

Eu me aproximei e ela sorriu. Droga, mas ela podia não ter sorrido, emanou de repente, tão fácil algo, algo único, uma felicidade dócil e animada, tudo de uma vez em um gesto que deveria ser banal. Aqueles olhos não podem habitar o mesmo rosto que esse sorriso.

Ela falava rápido, andava rápido, pensava rápido. Não tinha nem um metro e sessenta e me pareceu maior que sou, tão certa para onde ia, do que sabia, do que queria. Mostrou a cidade dela, e eu soube, soube que sai de mim para habitar um pedaço do universo dela, a cidade e o Centro. Sem querer me mostrou um pouco da minha história também, a igreja que meus pais casaram e eu tinha esquecido. Eu vi beleza naquela desordem, pois ela girava, pulava e me puxava pela mão, falando sem parar da história, quanto amor, amor pela vida, pela cidade, pela história, pela beleza duvidosa.

Eu me sentia tão bem ao seu lado, estava de alguma forma feliz com sua felicidade partilhada. Então lá em meio a uma exposição, pisando em uma sala coberta de sal grosso, que me parecia como deve ser habitar o mar, ela puxou mais uma vez minha mão e dessa vez me beijou. Esqueci como beijar, respirar, fechar meus olhos até, só senti sua boca rosada me invadindo.

Ela me tocou, me fez sair de onde estava perdido, me fez habitar seu universo e por fim me invadiu. Eu quis perguntar “quem é você?”. Pois, a tive e me fui e ainda não sei

Eu a senti, senti seus lábios, suas curvas delicadas, as vi cortando as luzes, enchendo minha vida, iluminando tudo. Ouvi suas palavras de amor terno, a vi de novo e de novo encontrar meu olhar a me procurar. Vi sua primeira tristeza, a vi, vi quando parti e a deixei e me deixei, deixe o mesmo verso do Neruda que antes já a magoou.

“Venho dos teus braços, não sei para onde vou”

E eu fui.

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