acho que tenho oito anos de novo.

quanto eu tinha oito anos, assistia muita novela com minha mãe. era um barato ficar acordado “até tarde” esperando o episódio diário de qualquer que fosse a trama das 21h. assistia cada cena aflito, curioso, rindo e chegando até a chorar. mas num ato há muito ensinado, tapava os olhos sempre que havia cena de beijo.

é claro que existe algo de errado em ver pessoas se beijando, eu pensava. tem algo a mais aí, e esse algo a mais não vem ao caso. mas em geral, estou fugindo de casais. estou fugindo de qualquer compromisso que esfregue na minha cara meu egoísmo inato. estou fugindo de qualquer ato romântico que me faz tremer por não poder oferecer reciprocidade. estou fugindo da falta do desejo de um futuro próximo com alguém específico.

a questão é que estou fugindo de mim. estou fugindo do vazio que cresce no meu peito toda vez que existe a obrigação dele ser preenchido com sentimentos românticos. tapo os olhos num ato desesperado de não ver como me porto frente à necessidade de doação, empatia, carinho mútuo e compreensão. tapo os olhos pra não enxergar minha aura tóxica, que sufoca aqueles que a engolem.

não quero ver que sou uma pessoa ruim. não quero ver que preciso mudar. não quero pagar uma fortuna em terapia frustrada pelos resultados estáticos, imutáveis. não quero pagar meses e meses de atividade física sendo que minha vontade de comer bobagens permanece. não quero aprender novas palavras em inglês porque sei que mal falo o verb to be.

tem algo nessa cena de novela que não quero enxergar. tem algo na minha vida que me cega os olhos, com aspectos mórbidos. meus pulmões secam, se enchendo da fumaça que me mata, que é o fôlego que tomo para dizer qualquer palavra que sai de meus lábios. meu estômago ácido se queima e se rasga, recusando-se a permanecer estático enquanto o outro. meus lábios racham pelas vezes que os mordi, arranjando coragem pra dar mais um adeus. e meus olhos se fecham cada vez que vejo tudo isso.

tenho oito anos e vivo um eterno episódio da novela das dez.