Mindhunter e a natureza humana

Logo depois que o The New York Times publicou a primeira reportagem sobre as décadas de abuso sexual do produtor Harvey Weinstein, ele declarou que crescera nos anos de 1960 e 1970, "quando todas as regras de comportamento profissional eram diferentes". A tentativa de explicação não justifica, nem de longe, os crimes que ele próprio cometeu, mas algo de fato ocorreu nos Estados Unidos — ou, talvez, no mundo todo — durante os anos 70.

Pelas estatísticas, a década é recorde em divórcios, abortos, estupros e gerou um surto de doenças sexualmente transmissíveis que culminou na epidemia da AIDS. Até mesmo dentro da Igreja Católica, é documentado um boom de casos de pedofilia entre os anos de 1965 e 1980. É neste contexto de caos moral que se passa a série Mindhunter, disponível na Netflix.

Criada por Joe Penhall, com David Fincher (que dirige quatro dos dez episódios) e Charlize Theron como produtores executivos, a série é inspirada no trabalho de John Douglas, agente do FBI responsável pelos primórdios da pesquisa de perfil criminológico, que deu origem ao termo "serial killer". Até então, o governo estava acostumado a lidar com criminosos que matavam em benefício próprio ou por algum motivo passional, mas não sabia como proceder com quem atacava sem nenhuma razão aparente.

Os Estados Unidos têm serial killers desde o século XIX, mas alguns dos casos mais notórios e violentos surgiram entre os anos 60 e 70, como os da família Manson, o de John Wayne Gacy, David Berkowitz, Ted Bundy, Zodíaco etc.. Na série, o jovem agente Holden Ford (Jonathan Groff) tenta entender o fenômeno conversando com um colega mais velho em um bar. Talvez seja resultado de uma série de acontecimentos inéditos que incluem o assassinato de Kennedy, a guerra do Vietnã e Watergate. Talvez o crime seja uma resposta à instabilidade do governo, que é, simbolicamente, uma instituição paternal. Mas a conclusão dos dois é que não há conclusão, ninguém sabe ao certo.

Logo em seguida, ele conhece Debbie (Hannah Gross), uma estudante de sociologia que questiona se o crime não é uma resposta ao que há de errado na sociedade. Holden responde que o crime é o que há de errado na sociedade, mas ela pede que ele pense a respeito, já que ele é um instrutor de agentes do governo. O papel de Debbie é importante porque é ela quem incentiva o protagonista a buscar perspectivas de fora do pensamento do FBI. Holden é jovem e curioso, mas é sua namorada quem inicia todo o processo. Além disso, as personagens femininas (Debbie e a doutora Wendy Carr, interpretada por Anna Torv) servem de importante contraponto em uma série em que mulheres são vítimas constantes de crimes brutais.

Um detalhe curioso e importante: no cinema, Debbie e Holden assistem hipnotizados a Um Dia de Cão (Dog Day Afternoon, 1975) e, enquanto isso, um casal de idosos se levanta no meio do filme e vai embora. Com isto, a série quer dizer que a cultura já não é mais a mesma, as sensibilidades mudaram. Holden, apesar de ser um agente do FBI, sente pena dos personagens. "Você tem empatia," diz Debbie.

É a empatia de Holden que permite com que ele entenda as motivações dos criminosos encarcerados que passa a estudar, mas ainda há o mundo mais concreto e menos caridoso dos crimes que eles cometeram. Essa empatia que, de início, é positiva, pois ajuda a compreender a mente criminosa e a solucionar novos casos, vai, aos poucos, se tornando algo mais perigoso. É uma transformação sutil e inusitada, muito bem explorada.

Outra surpresa foi o senso de humor. Em uma série de temas tão sombrios, há momentos de leveza que envolvem, em especial, o parceiro de Holden, Bill Tench (Holt McCallany) — ainda que ele não seja um alívio cômico o tempo todo, seu personagem também tem profundidade.

É importante dizer que a série não tira conclusões. Se devemos ou não ter pena de um assassino humilhado pela mãe durante toda a vida, se a pessoa já nasce criminosa ou se ela se torna criminosa, Mindhunter advoga em favor de todas as causas e apenas faz as perguntas, sem nunca de fato respondê-las, porque, mesmo em 2017, não temos respostas e nunca vamos ser capazes de responder com certeza.

David Fincher já deixou claro seu fascínio pelo crime e pelo mistério em Seven (Se7en, 1995), Zodíaco (Zodiac, 2007) e Os Homens Que Não Amavam as Mulheres (Girl With the Dragon Tatton, 2011). Com Mindhunter, ele questiona por que agimos da forma como agimos e por que nos relacionamos da forma como nos relacionamos, reafirmando sua paixão pela busca de um conhecimento maior de nós mesmos — um domínio que jamais será nosso, mas seguimos persistindo mesmo assim.

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