Psicose e Hellblade: Senua's Sacrifice

Disponível para Windows e PS4, Hellblade: Senua's Sacrifice conta a história de uma guerreira nórdica que viaja até o inferno viking para resgatar a alma de seu amado. Durante todo o jogo, ela luta com criaturas demoníacas enquanto ouve vozes que ora desdenham de sua jornada, ora incentivam seus golpes. Criado em colaboração com neurocientistas e pessoas que sofrem de psicose, Hellblade é um exemplo belíssimo de como os distúrbios mentais podem ser abordados em videogame.
Muitos são os games de terror que abusam de hospícios abandonados, cientistas malucos e vilões loucos em geral. São figuras clássicas também no cinema e na literatura. Mas poucos foram os games que tentaram humanizar um distúrbio mental. Jogando como Senua, uma heroína e não uma vilã, conseguimos compreender melhor sua condição e, até certo ponto, nos identificar com a personagem.

As vozes que Senua escuta — literalmente — o tempo todo se assemelham, por exemplo, aos pensamentos conflitantes e invasivos que uma depressão provoca; o conflito interno entre saber o que precisa ser feito e, ao mesmo tempo, se convencer a não fazê-lo; os diálogos tortuosos que travamos com nós mesmos e que são como batalhas constantes e exaustivas.
Acabar com o estigma que os distúrbios mentais ainda carregam é importante para que mais pessoas busquem ajuda sem qualquer tipo de constrangimento. Mas, mais do que um jogo meramente educativo, Hellblade é também uma obra de arte.
Com uma nota de 9/10, a IGN publicou que o jogo é "uma aula de mestre em atmosfera, narrativa e o casamento entre design mecânico e conceitual." De fato, a mecânica de Hellblade força o jogador a executar tarefas que, simbolicamente, representam uma possível superação do seu distúrbio, como, por exemplo, obrigar Senua a mudar de perspectiva para resolver puzzles que, vistos de uma única forma, pareciam sem solução (no jogo, uma ponte parece quebrada, é preciso "consertá-la" olhando-a de diversos ângulos para, então, atravessá-la). Fazer terapia é justamente buscar uma perspectiva diferente, uma forma diferente de ver que não esteja viciada pela doença.
Além da mecânica em perfeita sintonia com o tema central do jogo, a atuação das vozes é competente, o design de som impressiona e os gráficos são lindíssimos, dignos de uma produtora muito maior que a Ninja Theory (responsável também por Heavenly Sword, Enslaved: Odyssey to the West e Devil May Cry). Hellblade: Senua's Sacrifice é, sem dúvida, um dos jogos mais interessantes de 2017.
