Psicose e Hellblade: Senua's Sacrifice

Ieda Marcondes
Aug 22, 2017 · 2 min read

Disponível para Windows e PS4, Hellblade: Senua's Sacrifice conta a história de uma guerreira nórdica que viaja até o inferno viking para resgatar a alma de seu amado. Durante todo o jogo, ela luta com criaturas demoníacas enquanto ouve vozes que ora desdenham de sua jornada, ora incentivam seus golpes. Criado em colaboração com neurocientistas e pessoas que sofrem de psicose, Hellblade é um exemplo belíssimo de como os distúrbios mentais podem ser abordados em videogame.

Muitos são os games de terror que abusam de hospícios abandonados, cientistas malucos e vilões loucos em geral. São figuras clássicas também no cinema e na literatura. Mas poucos foram os games que tentaram humanizar um distúrbio mental. Jogando como Senua, uma heroína e não uma vilã, conseguimos compreender melhor sua condição e, até certo ponto, nos identificar com a personagem.

Senua

As vozes que Senua escuta — literalmente — o tempo todo se assemelham, por exemplo, aos pensamentos conflitantes e invasivos que uma depressão provoca; o conflito interno entre saber o que precisa ser feito e, ao mesmo tempo, se convencer a não fazê-lo; os diálogos tortuosos que travamos com nós mesmos e que são como batalhas constantes e exaustivas.

Acabar com o estigma que os distúrbios mentais ainda carregam é importante para que mais pessoas busquem ajuda sem qualquer tipo de constrangimento. Mas, mais do que um jogo meramente educativo, Hellblade é também uma obra de arte.

Com uma nota de 9/10, a IGN publicou que o jogo é "uma aula de mestre em atmosfera, narrativa e o casamento entre design mecânico e conceitual." De fato, a mecânica de Hellblade força o jogador a executar tarefas que, simbolicamente, representam uma possível superação do seu distúrbio, como, por exemplo, obrigar Senua a mudar de perspectiva para resolver puzzles que, vistos de uma única forma, pareciam sem solução (no jogo, uma ponte parece quebrada, é preciso "consertá-la" olhando-a de diversos ângulos para, então, atravessá-la). Fazer terapia é justamente buscar uma perspectiva diferente, uma forma diferente de ver que não esteja viciada pela doença.

Além da mecânica em perfeita sintonia com o tema central do jogo, a atuação das vozes é competente, o design de som impressiona e os gráficos são lindíssimos, dignos de uma produtora muito maior que a Ninja Theory (responsável também por Heavenly Sword, Enslaved: Odyssey to the West e Devil May Cry). Hellblade: Senua's Sacrifice é, sem dúvida, um dos jogos mais interessantes de 2017.

)

Written by

“I have always preferred the reflection of the life to life itself.” François Truffaut donieda[at]gmail

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade