mãe, pai, seu filho é gay

Estou em frente aos meus pais e amigos, dia 03/05/2014, os balões florescentes ao chão, chapéus de papel, copos com ponche, bolo. Uma festa surpresa de aniversário,perfeita, perfeita pra quem? eu precisava acabar com isso de uma vez por todas e dizer o que sentia. De pé, em frente ao bolo, silêncio. A notícia silenciou a todos ali. As palmas cessaram. A vela de 18 anos ardia sobre o bolo, ardia menos do que a ferida que se abriria após o comunicado. — “Gay? mas você já ficou com alguma mulher?” — “Eu não criei um filho homem pra gostar de outro homem”. Após o que restou da festa um chamado sútil à sala. — “Quero você fora da nossa casa, você não é o filho que eu e sua mãe criamos com tanto amor”. boom! me vi ali entre copos plásticos, bexigas e embalagens de presente amassadas, recolhendo cacos, meus cacos. Pra onde eu iria? eu tinha apenas 18. A única coisa que me deixaram fazer foi pegar roupas no guarda-roupa. Diálogo? isso não existe, não nesse momento. Os olhos da minha mãe marejavam água, os do meu pai me fuzilavam com tanto ódio. Minha mãe, mulher simples, sempre presente ao meu lado, tenho certeza que ela queria conversar, ela queria pedir para eu ficar, eu vi nos olhos dela “filho, eu te amo, fique!”. Olhar este que foi neutralizado pelo ódio que meu pai estava sentindo, e ela sempre seria submissa à ele. Saí de casa.

Liguei para um amigo, ele contou o acontecido para seus pais e eles me abrigaram. Eram incríveis e simplesmente não se “importavam” por eu ser gay ou estar dormindo no mesmo quarto que o filho deles. Durante 4 meses em que fiquei na casa deles, me ensinaram que eu não era “contagioso”, muito menos um “erro” e após noites em claro procurando me aceitar, e outras, olhando para uma lâmina, pensando que apenas um corte significaria liberdade, uma abertura naquela carcaça imunda e toda impureza esvairia de minhas veias. NÃO! isso nunca será a solução, eu quero ser feliz, viver um grande amor. — “dissemos isso à você naquela noite em que você apareceu aqui chorando e com uma mochila amarela nas costas, 3 trocas de roupa. “ VOCÊ É TÃO NORMAL QUANTO NÓS, QUANTO NOSSO FILHO E VAI SER MUITO FELIZ”. Durante esse tempo eles não me ligaram, ninguém se importou comigo.

Eu poderia terminar este texto dizendo que, alguns meses depois recebi um telefonema da minha mãe, marcando um almoço para “conversar” ou apenas um café rápido para “acertar os pontos”, mas não. Eles não ligaram, eles não me atenderam. Eles não frequentaram mais os mesmos lugares. E depois de um tempo eu também deixei de procurá-los. Nem todas as histórias têm finais felizes.

“Mãe e Pai, eu amo muito vocês. Se algum dia a saudade for mais forte que o orgulho, me procurem. Mas agora, me desculpem, estou vivendo, sorrindo, namorando, chorando, sofrendo, tropeçando, caindo, levantando, correndo novamente como todas as pessoas NORMAIS fazem. Um beijo, Fernando”

e próximo ao natal:

— “Alô?”

— “Oi?”

— “filho? é a mãe”

soluços ao telefone

— “Você ligou”

— “filho me desculpe, por tudo”

— “não tem que se desculpar mãe eu te amo”

— “eu também te amo, eu também”

— “e o pai?”

— “seu pai foi comprar umas coisas pra ceia de natal e eu queria muito que você viesse”

— “não sei, vou ver aqui”

— “tudo bem”

— “beijo, tchau”

— “tchau, filho”

Já estava chorando, não sei bem descrever a sensação. Nunca esperei uma ligação. Uma carta. Um bilhete. Quando aconteceu fiquei paralisado, apenas lágrimas escorriam pelo meu rosto. Eu amo vocês.

Pai é verdade; Sou diferente de você; Mas me diga por que eles me tratam assim?; Se você me der as costas; O que vou dizer?; Não sou o primeiro a ser traído por um beijo;… Deixe-os olhar! Deixe-os olhar!; Se isso é tudo o que eles podem fazer!;Mas eu perderia meu coração;Se eu me afastasse de você.

We Exist — Arcade Fire

Um beijo.

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