No meio do caminho tinha um cadáver, tinha uma cadáver no meio do caminho
- Bom dia!
- ...
- Bom dia!
- ...

Olhos semicerrados e inexpressivos, boca entreaberta e espumando, uma lágrima avermelhada no olho esquerdo. Cianótico e petrificado, bem na minha frente. Morto. Morto! Mas isso eu só notei segundos depois. Antes era só um homem deitado, braços abertos como o cinto da calça, peito nu, camisa pousada na perna esquerda. Poderia estar bêbado, dormindo, brisando, desmaiado. Não cruzei o limite da cerca. Rodei nos calcanhares e chamei os vizinhos que partilhavam o mesmo quintal. Havia ainda a esperança de que estivesse vivo. Dois dos vizinhos vieram e constataram o que eu já suspeitava mas não queria acreditar.
- A coisa é séria! Morreu.
- Chama os bombeiros.
Chamei os bombeiros. Alguém chamou os irmãos que moram no mesmo terreno.
- Ei. Ô. Seu irmão tá caído ali. Parece que morreu.
- Onde?
- No quintal, ali.
- Fala isso não, rapaz.
- Morreu. Tá morto.
...
- Ah... Morreu. Morreu! Ah, Marina*, morreu! Morreu.
- Para. Para com isso. Para com isso. Não faz isso... Não! Não. Aaah... Eu tô passando mal. Não acredito. Não...
Não gostavam do falecido, que tinha desavença com todos os irmãos - ou eles com ele - e mais alguns desafetos. O lamento cessou em quinze minutos, tempo que levou para a chegada dos bombeiros.
- Já tá rígido, cianótico...
- ...
- Tá aqui há pelo menos três ou quatro horas.
- ...
- Ok, estamos aguardando.
Era a bombeira contatando a polícia. Em seguida pegou os dados do falecido com a parente presente e deu algumas orientações. Os bombeiros aguardaram a chegada da PM. Eram três: uma mulher bonita, segura e competente e dois subordinados. Um deles estava inconfundivelmente pendurado de sono. Não o condeno.
Quando a polícia chegou já fazia cinco, seis horas ou mais de falecimento e duas de maledicência. Não bastasse ter tido eu a infelicidade de encontrar um cadáver nas primeiras horas da manhã e esperar uma polícia que não chegava, ainda fui obrigado a suportar o inconveniente de ouvir os familiares do morto que iam chegando e falando o quanto ele era ruim. Resignei-me ao silêncio isento de culpa que só o mal-humor matinal pode proporcionar. Me afastei e fui ter com sr. Manuel, que reparou na impertinência dos parentes catando mangas há alguns metros do corpo coberto por uma manta térmica. Não se deteve, porém, nesse fato e começou a falar alguma coisa da bíblia e tecer algum ensinamento, porque o sr. Manuel sempre tem uma palavra de esperança, um conselho, um encorajamento. Acolheu nos ouvidos as palavras do velho quem se aproximou e atentou, mas não lembro de outro além de mim. Nesse ínterim a viatura chegou. Então um dos PM’s começou a anotar meus dados numa folha de papel ofício A4 em letra cursiva neandertal: nome; nome do pai; nome da mãe; número de documento; endereço; profissão. Só isso? Só isso. Esperei duas horas por uma abordagem quase informal e sumária. Mas que bom! Melhor do que sofrer mais duas horas de algum procedimento padrão e ainda ser suspeito de assassinato. Saí ligeiro porque não queria perder mais nem um minuto da minha manhã. Corri ao posto de saúde a tempo de pegar os exames de minha mãe, porque a vida segue e a gente tem que olhar é por quem tá vivo.
* Nome alterado
Imagem: Toter Torero, Edouard Manet