Quintal urbano é alternativa para economia, biodiversidade e bem estar em Igarapé

Ter às mãos alimentos frescos e bem cultivados tem sido uma prática que vem ganhando espaço no Brasil. O desenvolvimento de quintas urbanos no país é uma prova disso, já que o movimento inclui o retorno de pequenas hortas em ambientes urbanizados, como em apartamentos em grandes cidades. Igarapé, mesmo com suas fortes raízes rurais, sofreu uma espécie de rejeição pelo o que se referia ao interior a partir do período em que começou a se urbanizar e industrializar.

O movimento criado pelo Igarapé Bem Temperado, festival que começa no próximo dia 14 e termina no dia 17 de julho, acabou por provocar uma reconciliação com as tradições culinárias. “No começo, as mestras, por exemplo, tinham grande resistência a apresentarem as comidas que celebramos no festival. Achavam que era ‘comida de gente boba”, comenta Letícia Cabral, gestora cultural do Festival. Por consequência dessa retomada e valorização dos costumes locais, ressurgiu o desejo de cultivar hortaliças, vegetais, frutas, criar galinhas e porcos nos próprios quintais de parte da população local.

Em Igarapé, percebe-se ao longo dos 12 anos do movimento Igarapé Bem Temperado o reflorescimento de quintais nas regiões urbanizadas da cidade, indo contra a corrente dos terreiros cimentados e retomando o contato com a terra e com o que ela tem a oferecer. “Conseguimos perceber a valorização dos quintais das mestras que mantiveram estes espaços em suas casas.

Os ingredientes dos pratos do festival (mesmo com o volume necessário) são em grande maioria plantados por elas, suas famílias, amigos e compartilhadas pelo grupo ou adquiridos de produtores locais que seguem a mesma lógica”, explica Carlos Stan, idealizador do evento.

A tradição de Igarapé é, além do cultivo de espécies mais comuns, a plantação de hortaliças não convencionais, conhecidas como PANCs (Plantas Alimentícias Não Convencionais). Essas plantas são muito ricas em termos nutricionais e de sabores. Mas, apesar disso, foram excluídas ou marginalizadas no nosso processo de construção da cultura alimentar — sendo reconhecidas como comida de pessoas menos favorecidas cultural e economicamente, comida de gente boba, como diziam as mestras, muitas vezes destinadas exclusivamente para alimentar das criações, como é o caso da beldroega ou reconhecidas como apenas mato.

Atualmente, existe um grande movimento nacional de debate sobre segurança nutricional e estímulo ao consumo dessas hortaliças que sempre fizeram parte dos guisadinhos de Igarapé. “Estamos falando de plantas como cansanção, mastruz, maria gondó, maria nica, umbigo de banana, folha de batata doce e muitas outras que as pessoas poderão conhecer nos pratos do festival” finaliza Letícia Cabral, gestora cultural do Festival.