Vidente sem preço na terra onde o sol cega

(história que é minha, de alguns parentes e de brasileiros pra caramba, mas, com certeza, inventada)

Vi uma foto do Velho Chico e lembrei de minha avó, Dona Antônia. Teotônia era seu nome (pasmem) nos tempos em que se banhava no São Francisco, como dizia, se escondendo dos rapazes que apareciam pra olhá-la. Filha de Maria Madalena e Agostinho de Jesus, tinha Santos no sobrenome e,nesse pequeno pedaço de história, um retrato da história de quem nasceu em Malhada dos Bois, no menor estado, Sergipe, desse chão de sangue, pisado por jesuítas.
Não teve vida de sombra e água fresca e trocou o calor de Sergipe pelo o do Rio de Janeiro, numa passagem de navio, para acompanhar o marido, que arrumara trabalho aqui.
Ela era a que lavava roupa, mulher do Antonio e mãe de 8, que fazia vista grossa pra muita coisa do marido. Quando eu nasci ela já tinha 75 anos . Todas as Antônias que existiram antes dessa, eu conhecia de ouvir. Contudo, vivi com uma senhora, que mal escrevia o nome, mas lia. Por causa do glaucoma e da catarata, enxergava pouco, mas via tudo o que eu fazia. Antonio (meu avô) era uma fumaça na história desta Antônia que conheci, não propositalmente, mas pela história que se desenhou pra mim com a morte dele.
Na casa das 3 mulheres, ela era ‘minha vó’. Frequentava igreja evangélica, tinha sido católica e me contava da visão que teve do espírito da sua mãe entrando em seu quarto no Rj, na mesma noite em que ela morrera em Sergipe, como um aviso. Ela era um álbum, um registro vivo da pobreza, do patriarcado, do cristianismo e da efervescência dos elementos que compõem a fé. imagino que a fé na vida.
Hoje sinto a falta dela e gostaria de perguntar o que nunca perguntei: como é ser tanta história? Como é trazer no corpo a marca dessa agitação? Como é ver tanto com um olho só? E, por fim, como é ter fé num Jesus contado de tantas maneiras por tanta gente e que tem tantas caras? 
Dos 11 anos que passei com ela, ficávamos muito mais vendo novela mexicana do que pensando nessas coisas. Mas desejo que essa senhora valiosa/vidente sem preço, como significou seu novo nome, tenha encontrado alguma vez lugar de sombra e frescor, nessa vida ou depois dela, como um dia lhe prometera o nome da sua cidade natal, Malhada dos Bois.