10am

Estou deitado aqui na cama, 10 am, pensando na vida. Os barulhos da cidade estão já a mil faz tempo. Passa avião, passa caminhão, passa carro, passa mosca, passa rinho. Daqui de baixo o teto é tão longe, e tão perto. Uma imensidão quadrada branca gelo, com seus cantos tridimensionais. Aliás, ao olhar pra’quele cantinho triangular, percebo que há um universo inteiro ali de seres menores e tão igualmente vivos! Será que eles estão olhando pra mim também, pensando em como eu sou um ser maior e tão igualmente vivo? Por um momento eu me vejo ali, como um quadro do Escher. Ele foi um cara bem sabido. Ele entendeu de forma magistral o conceito das multidimensões e do em cima e embaixo de Hermes Trimesgisto. Ele viu direitinho o mundo através do espelho, a Alice e seu coelho. Nada mais é que o mundo 9, nosso mundo gêmeo onde está nossa contra-parte, nosso complemento. Quando morremos nos encontramos pra unificar e somar experiências… afinal, somos um só, uma só energia metafísica separados em matérias diferentes! E voltando pra baixo (ou estou pra cima?), vejo Escher comendo com a Alice, junto com os seres da quina do meu quarto, com cada lado mais claro que o outro, com um teto tão perto, e tão longe. Os barulhos voltam, se é que foram embora. Eles estavam em outra realidade, do passarinho, mosca, carro, caminhão, duvião! Estão a mil, e eu aqui, pensando na vida, 10 am, deitado na cama que aqui estou.

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