Ônibus

Foto retirada do blog Janela Ambulante

Um dia desses eu estava no ônibus, voltando da faculdade. Não lembro o dia específico, nem como estava o tempo, nem se estava trânsito ou não. Não faz diferença.

O que importa é que em uma determinada parte do percurso o ônibus parou. Se por causa do trânsito, por causa do semáforo, acidente, não lembro.

E durante essa parada eu olhei para fora do ônibus. Estava sentado na janela, isso eu lembro (obviamente não estava sentado na janela mas sim no banco que fica do lado da janela).

E do lado de fora percebi uma mulher chorando. Ela não estava soluçando, nem chorando alto. Ela estava encostada em uma parede que poderia ser de uma loja, de uma casa ou ela também poderia estar sentada no ponto de ônibus (não no ponto em si mas sim nos bancos que ficam no ponto). Ela chorava de cabeça abaixada. Não sei como percebi que aquela mulher chorava, mas percebi.

Não sei e nunca saberei pelo que ou por quem ela estava chorando. Alguém próximo poderia ter morrido, ela poderia ter sido demitida, brigado com o(a) namorado(a), discutido com os pais ou qualquer outra coisa. Não que isso importe.

Eu não conseguia desviar meus olhos dela. Sabia que deveria, era uma coisa muito particular, mesmo que ela estivesse chorando em público eu não poderia está ali olhando para ela, invadindo a sua privacidade. Mas eu continuei a olhá-la.

Ela, como se tivesse sentido, levantou a cabeça e olhou diretamente para mim. Eu deveria ter desviado o olhar, uma parte de mim gritava para eu desviar. Mas eu não desviei. Continuei, e passei a olhá-la no fundo dos olhos, olhos que não lembro a cor mas que estavam vermelhos. Nesse momento eu dei um sorriso de leve, não faço ideia do porquê.

Mas ela não sorriu.

Continuou a chorar, daquela maneira discreta, me olhava com tristeza.

E, ao continuar a olhá-la, recebi um pouco do peso que ela levava. Um pouco da tristeza. Um pouco da dor. Um pouco das lágrimas.

E então o ônibus se moveu e continuo seu curso. Não faço ideia de quanto tempo passou.

Também não sei se ela saiu dessa interação mais leve.

Mas eu sai mais pesado.