O autor

São 14:37 e eu estou muito nervoso. Nesse momento estou no metrô a caminho do apartamento de Antônio Lemos, um dos autores brasileiros contemporâneos mais bem conceituados, e um dos meus autores favoritos.

Às 14:53 estou na portaria esperando ele liberar a minha entrada.

O porteiro me diz que eu só posso subir às 15:05 já que a entrevista está marcada para às 15:10. Eu peço para entrar e esperar no saguão.

Lá dentro eu repasso tudo o que sei sobre o autor. Escreveu cinco livros durante os anos 90, todos fizeram muito sucesso e ganharam vários prêmios, Jabuti, Prêmio São Paulo de Literatura, Prêmio Machado de Assis entre outros. O seu último livro lançado, em 1998, foi o de maior êxito, além do inúmeros prêmios, virou filme sucesso de bilheteria e foi traduzido para mais de 30 idiomas, se tornou um grande best-seller internacional, com mais de 1 milhão de livros vendidos ao redor do globo.

Porém, desde então, sumiu.

Nunca mais escreveu nada, não dava mais entrevistas, recusava convites para eventos como a FLIP, ou para escrever uma coluna em um jornal qualquer. Não possuía perfil em nenhuma rede social. Durante 18 anos ninguém mais ouviu falar de Antônio Lemos.

Até que em junho desse ano, ele anunciou um novo romance. A imprensa literária foi à loucura, todos queriam uma entrevista com ele. E ele atendeu, entre junho e outubro, quando o livro foi lançando, concedeu diversas entrevistas, falou unicamente sobre seu livro, intitulado de ‘A estranha vida de uma pessoa que nunca viveu’, sobre um homem que ao completar 50 anos percebe que jogou sua vida inteira no lixo e que decide criar uma vida nova do zero, porém todos seus planos dão errados e ele acaba cometendo suicídio na última página do livro.

Nesse período eu tentei inutilmente marcar diversas entrevistas. Ele sempre estava ocupado, sempre tinha entrevista com algum meio maior e mais importante. Eu trabalho num pequeno e inexpressivo site dedicado à literatura brasileira.

Mas depois alguns meses do lançamento a poeira tinha baixado um pouco e eu consegui a entrevista. Não acreditei quando li o e-mail. Eu ia finalmente entrevistar um dos meus autores favoritos.

15:06. Hora de subir. Chamei o elevador e esperei, o que pareceu um eternidade, ele descer dois andares. Entrei e apertei o número 7, obviamente o andar em que ele mora. Enquanto subia, suava frio, meu estômago estava criando vida própria, meu coração estava a mil.

Cheguei.

Bati a porta do apartamento. 15:09. Esperei. 15:11. Eu ia bater novamente quando ele abriu a porta.

Por um instante não sabia o que fazer. Pensei em sair correndo, aproveitar que o elevador ainda estava no mesmo andar e fugir para nunca mais voltar. Mas não.

Ele abriu totalmente a porta e foi para o lado, me convidando para entrar.

Entrei.

Fui apartar sua mão, mas ele nem cogitou a ideia. Fechou a porta, passou por mim e foi em direção a sala. O apartamento não tinha nada demais, era bem comum, não vale a pena descrevê-lo. Ele sentou no sofá e apontou em direção a uma cadeira que foi tirado do conjunto que estava na cozinha. Sentei.

Agradeci, gaguejando um pouco, a oportunidade de entrevista-lo, ele apenas balançou a cabeça. Abri o aplicativo de gravador no celular e perguntei se poderia grava a conversa, ele disse sim.

Fiz a primeira pergunta, algo relacionado ao seu processo de escrita e esperei ele responder. Só então consegui realmente reparar nele. Tinha por volta de 1,70, um pouco mais baixo do que eu, pele clara, de quem foge do sol como foge do diabo, cabelos castanhos, com calvície bem aparente, olhos também castanhos. Não consegui reparar nada além de tédio na sua expressão. Vestia roupas simples, uma calça jeans e uma camiseta branca sem nenhuma estampa, estava descalço.

A sua resposta foi bem sucinta e vaga, seu tom de voz demonstrava desinteresse. Já havia percebido isso em outras de suas entrevista, respostas curtas, vagas, que não acrescentam nada, o que resultavam em matérias curtas, vagas e que não acrescentavam nada, pensei que fosse o cansaço após conceder muitas entrevistas, por isso tinha esperança de que agora que tinha descansado um pouco depois da avalanche de repórteres que bateram a sua porta, eu teria chances de conseguir algo novo, de encontrar um Antônio Lemos mais alegre e falante.

Fiz outra pregunta, agora sobre as semelhanças entre ele a personagem principal. Recebi outra reposta curta e vaga.

E assim a entrevista foi se sucedendo.

Eu perguntava ele levava alguns segundos, em outros momentos até dois minutos, em puro silêncio, e não aquele silêncio em que alguém está pensando, apenas um silêncio desinteressado e agonizante para mim, e depois respondida com algo curto de vago.

15:20

15:25

15:30

15:35

15:40

Agora ele se levantou do nada. Foi a cozinha pegar água, não me ofereceu.

Eu estava sentindo algo quebrando dentro de mim, a admiração que eu senti por tantos anos desde que li pela primeira vez um livro seu quando eu tinha 15 anos e desde então li todos e reli e reli, dando lugar à descrença, de que alguém como aquela pessoa que eu via ali na minha frente, tediosa, sem respostas inteligentes, desinteressado, chato, pudesse ter escrito livros tão bons, personagens tão vivos.

15:47

Ele voltou, sentou no sofá, fiz mais perguntas, sobre a criação de personagens, sua relação com seus romances, se prendendo escrever mais livros.

Eu apenas os crio. São livros, que relação eu poderia ter com eles. Não sei.

15:58

Minhas perguntas acabaram, ele parece não aguentar mais, eu também não. Não quero mais olhar para a cara dele.

Mas ainda pergunto se posso tirar algumas fotos para ilustrar a matéria. Ele diz um sim tão sem vontade que quase desisto. Mas ele vai até seu quarto pega seu último livro, se dirige a janela que fica do lado de cama, e senta na janela com os pés encostados no colchão, posição em que ele saiu em todas as fotos de entrevistas que deu. Penso em perguntar se podemos tirar a foto em outro lugar, mas desisto imediatamente. Pego a câmera e tiro algumas fotos.

E de repente alguma coisa acontece dentro de mim, um rompante de raiva, um delírio. Eu avanço sobre ele e o empurro da janela, até começar cair ele não percebe nada, estava com o olho no livro.

Ouço seu corpo atingir o chão.

E estranhamente não sinto nada.

A única coisa que consigo pensar é que ele acabou do mesmo jeito que o personagem de seu livro, caiu da janela, com um livro na mão e desinteressado na vida.

Bom, pelo menos tenho algo interessante para escrever.

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