Um dia de atletismo

Foto: Athletics Weekly/Reprodução

Esta história se passa no longevo ano de 2006, quando a maior preocupação na vida era quanto tempo faltava para acessar a internet no horário mais barato. Na cidade de Juazeiro, localizada ao norte da Bahia, e povoada, à época, por 200 mil habitantes e de certa importância na localização regional. Contudo, com muitos problemas de ordem política, social e desenvolvimento. Resumindo: uma típica cidade do interior.

Estava cursando a 6ª série, atual 7º ano, na Escola Adventista, colégio privado e de certo conhecimento na região. No ano anterior, havia ingressado na escola e ainda estava na fase de adaptação. Uma dessas mudanças, no entanto, era a que mais me agradava: as aulas de educação física no horário normal da grade, o que não era comum no colégio anterior. Porém, elas se limitavam a basicamente dois momentos. O primeiro era um rápido aquecimento e, num segundo período, a divisão da (minúscula) quadra para os meninos jogarem futsal e as meninas baleô (conhecido mais popularmente como queimado/a).

Basicamente era assim que funcionavam as duas aulas semanais de educação física. A teoria por trás nunca foi uma tônica durante todo o período que estive no colégio, apesar de reconhecer o esforço dos profissionais que as ministravam. Tentaram algumas vezes, mas sempre esbarravam na falta de estrutura mais completa para tal.

Em dado momento do ano, o professor principal da disciplina convocou alguns alunos para participarem de um treino-seletivo para o atletismo da escola visando os Jogos Escolares municipais. Para a minha surpresa, fui um dos escolhidos, mesmo sem saber ao certo o que era atletismo. Ao final da seletiva, o resultado: iria correr três provas de velocidade — 100 metros rasos; 400 metros rasos; revezamento 4x100. Naquele momento, a minha primeira olimpíada e estava a minha frente, mesmo sem saber o que se fazia num revezamento 4 por 100 metros.

Breve nota: não sei se isso acontecia/acontece nas outras cidades e/ou regiões, mas em Juazeiro os Jogos Escolares representavam o melhor momento do ano. Era o período de competir com outros alunos de instituições de toda a cidade para, no final, a escola melhor ranqueada no quadro de medalhas ganhasse um troféu, à época, gigantesco e cobiçado por todos.

Após toda a preparação entre o treino-seletivo e a competição — período que consistiu em uma semana de diferença e dois treinos de 1 hora –, finalmente o dia havia chegado. Obviamente não consegui dormir pensando em como seria. Logo cedo, levantei da cama e fiquei treinando tiros curtos dentro de casa (obviamente não deram muito certo). Minha mãe, então, me pede para ir a um supermercado próximo. Eu que sempre relutava em ir, aceito sem titubear. Ao sair pelo portão de casa, visualizo minha baliza de prova e saio correndo já me imaginando na prova. Volto da mesma forma, confiante que ganharia todas as provas naquele dia. Chegando na concentração do time — escola — me despeço dos meus pais com a promessa de que eles me veriam mais tarde competindo.

Ao chegar no meu primeiro — e único — estádio olímpico (para mim), o monumental Estádio Municipal Adauto Morais, já me sinto como um próprio representante do meu colégio e amigos estudantes. Me junto aos colegas de instituição e tento focar ao máximo — no quê eu não sei, mas buscava ir além do que aquela prova.

Primeira corrida: quartas-de-final dos 100 metros — a minha prova favorita e de maior prestígio no esporte. Amarro firme os cadarços do meu All Star, olho firme para o areal da pista e vou com tudo: venço com certa tranquilidade e me qualifico para as semifinais que seriam disputadas à tarde.

Recebo os parabéns do meu professor de educação física, mas ainda não comemoro. Estava realmente focado — e a pergunta continua.

Segunda corrida: semifinal do revezamento 4x100. A equipe de revezamento havia treinado todo o esquema com o bastão algumas duas vezes. Senti que estávamos prontos. E realmente estávamos: passamos com tranquilidade para a final que seria disputada à noite, naquela que seria a última prova do dia e do atletismo nos Jogos Escolares daquele ano.

Na pausa para o momento do almoço, estou mais do que confiante. Duas corridas e duas vitórias com tranquilidade. Aproveito para ligar para minha mãe, que de pronto pergunta como tinha sido. Dou as boas notícias e ela confirma novamente que mais tarde ela e meu pai estariam presentes para as finais. Me sinto ainda mais motivado.

No retorno das atividades, a decisão dos 400 metros rasos. Tudo o que tinha recebido de informações era de seguir junto ao primeiro colocado segurando o ritmo e, nos 100 metros finais, corra o máximo que puder.

E lá vamos nós novamente ao ritual do All Star e o areal. “Em suas marcas… Vai!”. Tentei me segurar ao máximo próximo do primeiro lugar, mas ele — de fato — estava muito lento. Acredito que o treinador havia dito o mesmo para se segurar. Não consegui esperar e tive que passar a frente pouco antes de completarem os 200 metros. Dali em frente, só fui parado pelos colegas que corriam junto comigo após completarmos a prova. Era ouro. Não sabia como comemorar, até porque era a prova que eu menos esperava ganhar. Nunca tinha recebido tantos parabéns de gente tão desconhecida. Após o êxtase, a primeira coisa que pensava era em contar para os meus pais da vitória. Porém, ainda sem existir celular acessível à época, tive que me contentar em esperá-los até à noite.

Mas o dia ainda não havia acabado. Ainda haviam duas provas pela frente. As minhas duas preferidas, e que — achava eu — estava mais preparado para ganhá-las.

Depois de inúmeras provas fundistas, a tarde começava a dar lugar a noite e, com ela, a minha apreensão aumentava. Comecei a fazer os exercícios de alongamento me preparando para os 100 metros rasos. Me sentia pronto tecnicamente e fisicamente. Meus pais, os maiores apoiadores que tive no esporte, finalmente chegaram. Veriam ao vivo e a cores minhas duas últimas provas. Me preparei e me concentrei ainda mais. Aquela noite, pensei, faria eles se sentirem orgulhosos.

O megafone de loja de R$ 1,99 anuncia a final dos 100 metros e os finalistas. Vou confiante para a minha raia. Me preparo para ser consagrado o adolescente mais rápido da história de Juazeiro das últimas horas. Me vem à mente a visualização da prova feita logo cedo pela manhã. Vai ser só mais uma corrida. All Star e areal, lá vamos nós mais uma vez. É dado o comando e saio com toda força possível. Lembro até hoje de toda a imprensa fazendo a cobertura — uma pessoa com uma possível Cyber-Shot de 2 megapixels com flashes que pareciam estar em câmera lenta. Sinto que todos os corredores estão muito bem e será apenas na chegada o resultado. Porém, aos fatídicos 50 metros da prova, sinto a posterior da coxa direita. Uma dor insuportável, mas que tive que aguentar, afinal era a minha prova. Era o meu ouro em jogo, além de ter meus pais e colegas do colégio me assistindo.

Na chegada, a maioria conclui muito próximo, mas sei que nem ouro nem prata iria ganhar. Minha esperança estava no bronze, logo desmentido pelos árbitros — fiquei em 4º lugar. No auge da minha maturidade aos 12 anos, não aguento e choro. Choro muito. Vou me arrastando da pista de provas para a arquibancada aos prantos e mancando muito. A pior cena ainda viria a seguir: ver meus pais segurando o choro e me segurando firmes. Deram vários abraços e palavras de incentivo, além de arranjarem gelo para colocar na coxa. Recebo o apoio dos colegas, diretora e do treinador. Me sinto um fracasso.

Fiquei recebendo os todos os cuidados enquanto as provas continuavam acontecendo. Mas nada me tirava da cabeça que havia perdido minha prova preferida. Todo o meu esforço — dois treinos — não tinham sido recompensados. A lesão já começava a doer mais com o sangue esfriando, mas era a minha menor preocupação. Tentei me alegrar com as vitórias dos colegas de colégio em outras provas, mas na verdade o pensamento egoísta falava bem mais alto.

A decepção tinha sido tão grande que já nem lembrava que faltava a última prova do dia, o revezamento 4 por 100 metros. Na mesma hora reagi com surpresa e, ao mesmo tempo, total esperança de me recuperar da prova anterior. Era a minha chance. Quando fiz menção de participar, porém, todos repreenderam pela lesão. Em especial, meus pais me aconselharam a não ir. Mas não poderia deixar de tentar me recuperar. Não poderia abandonar meus colegas, pois não havia a possibilidade de troca. Tinha me decidido: eu ia correr.

No megafone é anunciada a última prova do dia: o revezamento 4 por 100 metros masculino. Me preparo com certa dificuldade, mas faço questão de mudar. Desamarro os cadarços e fico descalço. Vou andando devagar e sempre para a minha marca. Sou o segundo a receber o bastão. Me preparo para o início da prova: pés descalços e areal. Toda a concentração para lembrar dos treinos de passagem e correr o máximo que posso. Lá estão meus pais, colegas e treinador. A hora é agora. A última chance. Após o tiro, não começamos tão bem, recebo em quinto quando o primeiro colega me passa. E aí que nunca conseguirei entender como, mas corro com tudo o que posso e entrego o bastão para o próximo colega na segunda colocação.

Após a passagem, não consigo prestar atenção no resto da corrida. Só consigo ficar feliz. Pouco tempo atrás não conseguia nem andar direito e consigo me superar. Ir além do que o corpo diz. Naquele momento entendi o significado direto de superação. Como o esporte é capaz disso? 10 anos após e eu ainda não tenho essa resposta. Talvez isso que também seja uma das maiores recompensas em praticar o esporte: ser o melhor de si e para si. E, claro, em qualquer situação.

Quase me esqueço: meus outros dois colegas deram o maior fôlego da vida e conquistamos a medalha de ouro. Pura alegria naquele dia. Voltar para a arquibancada foi como voltar de um país distante após ter conquistado o maior feito na vida. Meus pais me viram ser campeão em algo que eles apoiaram. Foi e sempre será uma das maiores alegrias que levarei na vida.

Naquela noite, dormi com minhas duas medalhas conquistadas no pescoço. Feliz com o dever cumprido. Sonhando com o próximo estádio olímpico que entraria.