Desde a Antiguidade, pensadores buscam a definição de política. Independentemente se ciência ou arte, se teórica ou prática, nos tempos atuais a Política se define como a defesa do óbvio.
A partir, sobretudo, do século passado, uma avalanche de teorias antinaturais inundou o cenário intelectual e seus efeitos foram sentidos de maneira mais contundente não apenas na cultura, mas também na política. Não sem motivos, Chesterton já nos alertava que “chegará o dia que teremos de provar ao mundo que a grama é verde”. Chegamos finalmente a esse triste dia.
Interessante notar que Chesterton diz que “teremos de provar”. O autor inglês certamente se referia a tais teorias antinaturais que, uma vez ganhando o status acadêmico como de fato ganharam na atualidade, somente poderiam ser refutadas academicamente, ou seja, por meio de provas, demonstrações científicas, debates. Por isso a afirmação de que “teremos de provar…”.
Esse foi o caminho de entrada para discussões de pautas que nunca existiram e que desafiam pôr a baixo os valores tradicionais que formaram nossa civilização. É importante notar que a discussão e o debate são, paradoxalmente, impostos “de cima para baixo”. O debate, instituto vulgarmente conectado à ideia de democracia, tolerância, pluralidade etc, surge de uma imposição arbitrária. Não é incomum vermos slogans do tipo “temos de falar sobre o aborto”.
Temos mesmo de falar sobre isso? Mas por que temos de falar sobre o aborto? Essa pergunta chega tarde, sempre depois que a imposição já foi feita. Já começamos a debater o tema e ficamos suscetíveis à exposição de teses, por exemplo, que visam sustentar que uma pessoa não é uma pessoa, premissa basilar de alguns daqueles que defendem o aborto. Por esse motivo Chesterton afirmou que “teremos de provar…”, isto é, seremos forçados, obrigados a provar.
Mas será mesmo esse o caminho de combate a essas arbitrariedades? Teremos de entrar no jogo e aceitar como crianças obedientes a imposição de controvérsias que tocam em valores que nos são tão caros, como a vida e a educação de nossos filhos?
Essas controvérsias saíram dos bancos da academia e ganharam assento nos parlamentos e nos tribunais, concretizando-se em políticas públicas e também em decisões judiciais. Uma vez infestadas desse tipo de controvérsia, nossas instituições ganharam contornos completamente contrários à base natural que as sustenta.
É nesse sentido que urge a necessidade da Política como defesa do óbvio, a defesa daquilo que sequer poderia ser posto em discussão.
Para finalizar e dar traços mais concretos a esta definição, é de grande valia a lição de Sócrates a respeito da linguagem: como artifício humano é, por definição, artificial. No entanto, isso não significa que seja a linguagem antinatural. Apliquemos analogamente esse ensinamento à Política: que seja um artifício humano, mas que jamais seja antinatural. Diante de cenário tão antinatural — tão mal, por definição — nossa tarefa consiste na intransigente e heróica defesa do óbvio. Eis a definição da Política em nossos tempos.
