Fogo-fátuo

Igor Bertolino
Jul 24, 2017 · 2 min read

A lenda que se reza nas canções de guerra descreve a criação de uma entidade monumental forjada nas chamas verdes de um vulcão belo e terrificante como só as montanhas incandescentes podem ser, um colosso geológico que se erguia no coração daquela civilização de ladeiras íngremes e árvores tropicais, que atraía periodicamente o povo em romaria o venerando como a um templo sagrado.

A criatura de imponência jurássica foi lapidada com a força de cem milhões de javalis, o ímpeto de um leviatã faminto e sua mera presença transferia ao ambiente a sensação magnífica de um abalo sísmico.

Ela possuía duas cabeças e sua característica siamesa trazia ao mundo a dualidade polar. Era ao mesmo tempo deus e demônio, júbilo e melancolia, salvação e sina, vida e morte. Súbita e avassaladora como a tempestade da juventude, ponderada e sábia como o crepúsculo de um ancião. Seu povo a amava e a odiava, desesperava-se e confortava-se, e assim seguiu do alvorecer à eternidade.

Pois sua existência carregava a compreensão terrível do sentimento que move as massas e faz chorar os tiranos: a paixão. E assim seu culto seguiu, e assim sua civilização triunfou ao mesmo passo que definhou, pois na lenda que se reza diz-se que só se conhece a transcendência valquírica da vitória quando se é íntimo da tragédia, e que só se vence a oportunidade única que é a vida quando se conquista ao esgotamento as tantas desgraças da morte.