Ao pó voltaremos…
Sobre ciclos viciantes, tragédias monumentais e uma irônica moral da história.

Quando dizem que uma história mal resolvida tende a se repetir, não é à toa. O dito popular é só um entre a série de estereótipos que vem à mente diante do trágico incêndio que levou o império guardado no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, às cinzas. Os números foram noticiados e reproduzidos pela mídia formal e informal — desde os telejornais até as redes sociais, a revolta em virtude da perda de mais de 20 milhões de itens que residiam na instituição, foi acompanhada por estatísticas igualmente alarmantes. Ao completar 200 anos em junho deste ano, a indignação de internautas voltou às pautas dos veículos midiáticos ao pontuar que nenhuma autoridade compareceu para prestigiar o aniversário do maior patrimônio histórico do país. Em mais uma nota irônica, afirmam que o último presidente a visitar o local foi Juscelino Kubitschek.

A reportagem da Folha de São Paulo, em maio deste ano, destaca ainda o declínio de repasse de verbas, em contraponto à necessidade alarmante de manutenções preventivas do patrimônio. De acordo com a matéria, o Museu Nacional não recebia sua verba integral (R$ 520 mil anualmente) desde 2014.

Ignorado rudemente por autoridades, à mercê do tempo e limitado pelo espaço, o Museu se foi. Artefatos, registros, monumentos, fósseis, múmias e obras de arte foram reduzidos a pó, fazendo jus à profecia bíblica: do pó viemos, ao pó voltaremos. A história da humanidade, ao que parece, permanecerá mal resolvida e fadada à repetição, até que aprenda a reconhecer o valor de um legado preservado.
Entre as cinzas, no entanto, há uma tragédia encoberta que precisa ser debatida, e é aqui que você e eu também entramos na roda: quando foi a última vez em que você esteve pelo Rio de Janeiro e passou pelo museu? Ok, espere. Isso não é uma pergunta justa… O certo seria perguntar quando foi a última vez em que você esteve em um museu? Qualquer museu.
Minha última vez, ironicamente, foi há alguns meses. Mas assim como a verba do Museu Nacional, meu foco de atenção foi desviado. Confesso sim que minha atração pelo Museu Histórico e pelo Museu de Arte de Londrina foram por seu aspecto rico… em termos de “curtidas” em fotos do meu Instagram.

O primeiro passo para consertar um problema é admitir que ele existe. O segundo passo para impedir que uma história se repita é, portanto, tomar um rumo diferente daqui pra frente. Entre as reportagens, notas, postagens, tuítes, e toda a indignação que amanheceu junto aos escombros do incêndio, talvez valha mais a pena desviar parte da culpabilização governamental para si mesmo. Claro, aqueles que estão à frente dos repasses de verbas, e fiscalizações de segurança não devem deixar de ser penalizados. Mas e quanto ao turista que viaja para o exterior todo ano, e compartilha posts pelo Facebook sobre nosso mais recente desastre natural? Somos todos reféns dessa história — a mesma que chamuscou a imagem do país, e a mesma que continuará se repetindo enquanto for mais fácil acusar o descaminho do outro, do que admitir o nosso.
Eu admito a minha parcela de culpa pelo que aconteceu com o Museu Nacional, independente de nunca tê-lo visitado. A questão, se permitirmos nos desconstruirmos um pouco das nossas noções pessoais de prioridades, é exatamente esta: a falta de visitas. A ausência de turistas. A consequente queda do lar que abrigava, ironicamente, os registros insubstituíveis da ascensão de uma nação. Eu não fui, não vi nada, e aposto que nem você.
Caso esteja errado, deixe abaixo a sua opinião, antes tarde do que nunca, do que achou da sua última visita. Em sequencia, se puder, deixe seu repúdio por esta ser sido realmente a última. Nós realmente temos uma escolha: podemos preservar nossa história e ensinar sua importância para as próximas gerações, em prol de um futuro melhor, ou continuar andando em círculos enquanto nosso mundo pega fogo. Literalmente.
Moral da história: valorize a cultura nacional, antes que seja tarde. O Instagram ainda sequer completou dez anos; o museu tinha 200. No mínimo, respeitemos os mais velhos.