Arte de mentira ou deixem os artistas em paz

Não é incomum abrir um jornal (ou um blog qualquer), como esse aqui, parar os olhos e o mouse em um portal de notícias, ou ainda, deparar-se com textos espalhados pelos quatro cantos da internet que reverberam um certo rancor, uma angústia, raiva, e mais alguns adjetivos que não convêm citar aqui, sobre o que chamamos “arte contemporânea”.

My Generation por Eva and Franco Mattes

Seja as “famosas” instalações em que artistas do “nosso tempo” transgridem formatos, conteúdos e remodulam experiências sensoriais. Seja uma tela em branco, uma teatro sem palco, seja uma dança sem movimento — “stillness”, a dança “parada”. Ou ainda, seja uma música composta com ruídos informáticos, vídeos projetados não em telas mas em corpos, no meio de ruas e avenidas, ou ainda sobre os espectadores. Os exemplos se produzem ad infinitum, ainda bem.

Batucada por Marcelo Evelin

Toda essa miríade de expressões estéticas, por conseguinte éticas, afetivas e políticas, no tocante ao sensível das palavras, das formas e das coisas que envelopamos dentro dessa problemática expressão “arte contemporânea” é vítima — palavra forte eu diria, anyway — de uma crítica de crachá, mas também de toda sorte de indivíduos incomodados-exasperados contra essa arte esquisita. Percebo nesse incomodo que o discurso, contra essa arte sem quadro, essa música que “escorrega” em um espaço liso — para lembrar do riquíssimo conceito cunhado por Pierre Boulez — ou ainda esse cinema em que palavras e imagens criam conflitos e tensões e que espaço e tempo se desconjuntam; sempre retorna — o paraíso perdido — para uma tentativa de explicar-maquinar a nós, grandíssimos leigos, todo um enunciado-verdade do que seria a grande arte de “verdade”.

A roda de bicicleta por Marcel Duchamp

Fato mais curioso ainda é que tal “crítica”, ao que parece, tem origem nos mesmos grupelhos que regurgitam em repetição contínua palavras de ordem sobre a grandiosidade dos “ready-mades” de Duchamp, do maravilhoso estudo sobre linhas e cores de Kandinsky e que distribuem gracejos exasperados às peças de Beckett e Artaud. E mais, alguns dos senhores e senhoras de crachá, vivem de rememorar a beautide expressiva das vanguardas surrealistas e pós-surrealistas, além é claro, de não terem “passado” da semana de 22.

Esperando Godot por Samuel Beckett

Que me perdoem Tarsila do Amaral ou os Andrades, mas prefiro lembrar Manoel de Barros: “tudo que não invento é falso” e que a arte, seja lá o que isso seja, possa ser o que bem ou mal entender. Gostaria, apenas e tão somente da arte de “mentira”, “falsa”, “vagabunda”. Essa que acontece, que explode, que se derrama pelas paredes da cidade, pelos livros que gaguejam a linguagem, pelo cinema que cria outros tempos, outros espaços, outros “possíveis”. Potência de expressões inauditas e invisíveis da arte que sempre vem — sempre em marcha, nunca conclusa — da arte em devir perpétuo, traçando suas linhas de fuga, seus mapas de intensidades. Com Deleuze, diria, um exercício constante menos de interpretação, esse fantasma que assola o dito e o visto, e mais de experimentação, criação, destruição e renovação. Para além ou aquém da normativa das palavras e das formas. Parafraseando Godard: não uma arte justa, justo uma arte.

texto publicado originalmente, com algumas alterações, na edição impressa do Jornal O Dia — domingo, 08/11/15, página 2.